17 fevereiro 2017

Galveias - José Luís Peixoto (2014)

Encontro um certo mel na escrita do JLP que me adoça a alma. Lembra-me as férias de verão passadas na aldeia e de todo aquele bucolismo. Sinto-me frustrada quando o meu pai, verdadeiro ex-aldeão, diz que não vê o mesmo na escrita do homem e nem sequer gosta do estilo. Xiça! Porque será? 

Comecei a sentir verdadeiramente a nostalgia da "terra" no livro Em teu ventre e fiz questão de ler alguns capítulos na Lapa ("terra" do pai), o que se repetiu com este Galveias, que me fez lembrar pessoas, lugares e histórias que tão bem conheço e das quais sinto saudades todos os dias. É incrível esta paixão por um lugar que na verdade só começou a ser meu por volta dos 13 anos. 

Bem, mas deixando-me de sentimentalismos e focando-me no livro em si, sem ser este mel que o JLP nos passa, escreve de uma forma cativante a lembrar um thriller. Talvez surja uma certa desilusão no fim à falta de uma apoteose extraordinária, mas talvez dependa do ponto de vista. Podemos considerar que a simplicidade dos factos pode ser vista como uma verdadeira epifania e assim o rematar perfeito desta novela.

Termino com um modesto índice que me deu jeito para me ir relembrando dos personagens. 

Janeiro 1984
Cap. 1 - O acontecimento I.
Cap. 2 - Catarino.
Cap. 3 - O velho Justino.
Cap. 4 - Rosa Cabeça.
Cap. 5 - José Cordato.
Cap. 6 - A professora Maria Teresa.
Cap. 7 - Ti Manuel Camilo.

Setembro 1984
Cap. 8 - Joaquim Janeiro.
Cap. 9 - O cão da Barreta.
Cap. 10 - João Paulo.
Cap. 11 - Isabella.
Cap. 12 - Raquel.
Cap. 13 - Maria Assunta.
Cap. 14 - Funesto.
Cap. 15 - O padre Daniel.
Cap. 16 - O acontecimento II.


30 dezembro 2013

1Q84 (vol.1) - Haruki Murakami (2009)

Será que as trilogias sempre estiveram na moda e eu é que andava distraída? Apercebi-me ontem que os próximos livros que gostava de ler fazem todos parte de alguma trilogia o que me assusta um pouco... quando é que irei conseguir terminá-las? 

Mas passando ao que interessa - Murakami. Nem consigo destrinçar o porquê de gostar tanto da escrita dele ainda mais com a sensação de incompletude com que o final de um primeiro volume nos deixa. Acho que tem o condão nos fazer sentir próximos de mundos que à partida nada tinham a ver connosco. 

"É certo e sabido que, se uma pessoa tivesse de aceitar o tempo que passou, de forma uniforme, pela ordem certa, os seus nervos não aguentariam a pressão. Tengo acreditava que uma vida assim constituiria uma perfeita tortura." (pág.436) 

Quanto à história em si, fala-nos de Tengo, de Amoame, de infâncias traumáticas, de relacionamentos talvez pouco usais, de apatia e, claro, o surrealismo sempre presente.

"O que significa para uma pessoa ser livre?, perguntava-se muitas vezes. Mesmo que a pessoa consiga fugir de uma gaiola, não dará consigo numa gaiola maior?" (pág.304)

"A matemática proporcionava a Tengo um eficaz meio de evasão. Ao procurar esconder-se no mundo das fórmulas, podia escapar da complexa prisão que a realidade representava." (pág.293)

Talvez tivesse sido mais interessante começar por ler o 1984 do George Orwell, mas terá de ficar para depois. Fica a dica para alguém interessado e já agora mais algumas referências que surgem ao longo do livro que dava jeito conhecer:

  • A sinfonieta - Janácek
  • O Cravo bem temperado - Bach
  • Horizontes de Glória - Kubrick
  • A ilha de Sacalina - Tchékhov

12 agosto 2013

Inferno - Dan Brown (2013)

O prazer que me dá começar o Verão com um novo livro do Dan Brown!
Sim, é sempre a mesma coisa. Sim, não é nenhum génio literário. Sim, blábláblá. Quero lá saber! É viciante e leva-nos a viajar a uma velocidade alucinante. Com que outros livros me ponho grudada ao Google a pesquisar todas as referências que surgem no enredo? Se ganhasse o euromilhões partia de imediato para Florença, Veneza e Istambul para cuscar tudo.

Além das cidades, pintores e monumentos escolhidos, gostei do tema central que motivou algumas conversas interessantes com amigos.
Já o imagino a escrever o próximo thriller inspirado em Lisboa, revelando segredos milenares desde sempre escondidos nos claustros dos Jerónimos e com uma miúda gira do Centro Champalimaud  a ajudar o Robert Landgon.

Gosto também dos pequenos "doces" com que Brown presenteia os seus leitores e questiono-me se muitos me terão escapado por entre tantas estrelas.

09 agosto 2013

A Viúva Grávida - História Interior - Martin Amis (2010)

Não sei porque raio é que demorei tanto tempo a escrever sobre este livro já que acabei de o ler há mais de um mês. Também não sei bem se gostei ou não. Por isso, como estão a ver, não vai ser fácil.

Isto foi o que eu escrevi sobre "A Viúva Grávida", quando o comecei a ler, em Agosto de 2012:
"Bastou-me ler o primeiro capítulo para me deslumbrar com a escrita de Martin Amis. Tenho de me render às evidências de ele ser um génio literário atual."

Pois bem, passadas mais de 500 páginas, tenho dúvidas sobre a frase anterior. É verdade que no início gostei muito do livro, achei piada à forma "precoce" como o autor gosta de descrever uma dada situação, não me cansei de o ler (apesar de ter feito pausas enormes) mas no fim estava completamente irritada, com a sensação de que metade do ambiente me passou ao lado. 

E para não sofrer mais com este exercício cansativo em tentar perceber o significado deste livro para mim, deixo-vos com umas linhas, para ver se vos seduz, ou não:
"... Ele adquirira uma certa compreensão disso, por esta altura - desta coisa de nos atirarmos às raparigas. Estava-se a sós num quarto com a desejada. E então formavam-se dois futuros.
O primeiro futuro, o futuro da inércia e da inacção, já era grosseiramente familiar: era tal e qual como o presente. Era o diabo que já se conhecia.
O segundo futuro era o diabo acerca do qual nada se sabia. E era um gigante, com pernas da altura de campanários, e braços da grossura de mastros, e olhos que fuzilavam e queimavam como horrendas jóias.
Era o nosso corpo que decidia. E ele estava sempre a aguardar as suas instruções. Sobre o tapete espesso ele sentava-se com a desejada,  quando cada jogo atingia o seu clímax punham-se os dois de joelhos, com os rostos somente separados pelo hálito." (p.163)

03 abril 2013

Quem matou Palomino Molero? - Mario Vargas Llosa (1986)

Surpreendo-me com o facto de já terem passado dois anos desde que li o "Travessuras da Menina Má". Mas pronto, confirma-se que sou fã do Llosa e planeio ler em "breve" toda a sua obra, começando pelo "Lituma nos Andes" já que me parece ser uma continuação deste. É também uma confirmação que os escritores sul-americanos são muito o meu estilo. Aprecio! - já diria a minha mãe :)
 
Apetece-me rumar para sul, à procura de um Perú que até há pouco não me suscitava interesse, sentar-me num boteco qualquer, protegendo-me de um sol abrasador, beber um refresco e ficar simplesmente a ver o tempo passar.
 
Provavelmente é um lugar comum compará-lo com o Gabriel G. Márquez e, tendo em conta que em adolescente li tudo o que encontrei do colombiano, inevitalmente lembro-me várias vezes dessa época e este livro em particular lembrou-me o "Crónica de uma Morte Anunciada", para mim o mais genial do GGM.
 
"Claro que ando inquieto. Mas eu disfarço, a mim não se me nota. Tu, em contrapartida, tens  uma cara que dá pena. Parece que, cada vez que uma mosca arrota, te cagas nas calças." (P.123)

29 março 2013

A Morte em Veneza - Thomas Mann (1912)

 "A solidão é propícia ao original, ao estranhamento e ousadia do belo, à poesia. Mas gera também o perverso, o monstruoso, o absurdo e o ilícito." (pág.40)
 
A lembrar amores platónicos obsessivos que moldaram algumas épocas. Fala da busca incessante da perfeição, da beleza, numa ânsia vertiginosa que nos lança num abismo de irracionalidade, culminando, neste caso, na morte.

Texto maioritariamente filosófico, rápido de ler, e que deixa em nós saudade de uma Veneza não experimentada, melancólica, nefasta, mas não sei porquê apelativa.

Na próxima segunda-feira o filme do Visconti passa na TCM e eu não vou perder.

20 agosto 2012

A Catedral do Mar - Ildefonso Falcones (2006)

No início ainda temi que fosse mais um Meu Pé de Laranja Lima, onde um pobre desgraçado levava "porrada" constante do destino mas, tendo em conta as opiniões válidas e favoráveis que me deram acerca deste livro, lá insisti e vim a descobrir que A Catedral do Mar não se resume a um chorrilho de azares mas alberga também umas lufadas de sorte.

Julgo que é praticamente impossível uma pessoa não se apaixonar pela personagem de Arnau Estanyol ao longo das quase 600 páginas deste livro que sem dúvida é a pedra basilar desta Catedral do Mar e que lhe impregna todo o carisma e misticismo.

 Diz que está para sair em breve a versão cinematográfica da coisa, apesar de não ter encontrado nada na World Wide Web. Eu cá fico ansiosa para a ver.

21 abril 2012

A Viagem - Virginia Woolf (1915)

"- Calculo que lhe doa a cabeça, não é? - interpelou-o ela servindo-lhe mais chá.
- Bom, de facto dói - admitiu Richard. - É humilhante verificar até que ponto neste mundo somos escravos do nosso corpo. Sabe, eu sou incapaz de trabalhar sem ter uma chaleira de água quente ao pé. O mais das vezes nem sequer bebo chá, mas preciso de sentir que, se me der vontade, posso beber." (p.80)


Estava dificil, mas foi. Este estilo do início do séc. XX, onde o enredo mais cedo ou mais tarde vai parar a salões de chá, com cavalheiros cheios de mordomias para com senhoras enfeitadas com chapéus de plumas, sem dúvida não é o meu predileto, mas a verdade é que o livro não é mau e queria mesmo ler.
Lembra Eça, com descrições impecáveis mas que nos fazem perder, sendo de leitura mais fácil do que eu estava à espera. Mesmo assim, surgem por vezes parágrafos que me deixam completamente à nora e fico com a sensação que não estou a pescar nada do que se está a passar. Quando o comecei a ler, tendo em conta o que já tinha ouvido falar de Woolf, disse para comigo - Alguém tem de morrer no fim. - Estava difícil, mas foi.

"(...) E no entanto, há ocasiões em que me pergunto se haverá no mundo alguma coisa que valha a pena fazer para além da escrita. Aquelas pessoas que ali estão - apontou para o hotel - desejam sempre alguma coisa que não podem ter. Já a escrita, nem que seja uma mera tentativa, proporciona-nos uma satisfação extraordinária. O que disse ainda agora é verdade: nós não desejamos ser as coisas; desejamos apenas poder vê-las." (p.242)

O mais positivo de tudo isto foi descobrir que há mulheres que escrevem à homem, por muito sexista que isto possa parecer, o que em certa parte é um alívio e deita por terra aquela minha teoria de se perceber perfeitamente o sexo do escritor sem olhar para a capa.

"Experimentou todo o género de imagens, retirando-as das vidas dos seus amigos, pois conhecia muitos casais; mas de todas as vezes os via enclausurados numa sala com a lareria acesa. Quando, por outro lado, se punha a pensar em solteiros, via-os activos num mundo sem limitações; acima de tudo, posicionados ao mesmo nível dos restantes, sem abrigo ou vantagens. Todos os seus amigos e amigas mais únicos e humanos eram solteiros e solteironas; aliás, foi com surpresa que constatou que as mulheres que mais admirava e que melhor conhecia não eram casadas. Dava a impressão de que o casamento era mais gravoso para elas do que para os homens." (p.270)

Repleto de palavras como "quão", excertos de poemas do século XIX, dos quais nunca ouvi falar, sinto que para recuperar desta "viagem" ao passado, longa e penosa, preciso de devorar o último bestseller
Ela escreve bem, mas simplesmente não é o meu género e ponto final, parágrafo.

25 dezembro 2011

O amante é sempre o último a saber - Rui Zink (2011)

Tudo o que temos de referências do Japão, está lá - Murakami, karaté, Lost in Translation, karaoke, a história do arigato, etc. - tudo o que conhecemos do Zink também está lá - interrupções na narrativa para comentário do escritor para o leitor, os trocadilhos, as referências subtis (ou não) - mas a verdade é que não gostei e foi uma verdadeira desilusão depois do muito amado Destino Turístico.

Acho que me fartei, enfim é a vida, mas com alguma tristeza. Até que a ideia central do livro tem uma ponta de interesse, mas não desenrolou... e agora olho ansiosamente para a estante, na procura da escolha perfeita para o próximo livro... e fico com a ligeira sensação que foi precisamente na página que a seguir transcrevo, que o Rui Zink perdeu uma fã:

"Tano ficara calado. Como se diz em gíria? Com um melão. Um ganda melão.
Um ganda enorme melão. Um ganda melão que poderia até ganhar um prémio num concurso agrícola para os maiores e mais belos e mais amarelos gandas melões." (p.55)

Quanto ao título, ultrapassa-me a compreensão de uma razão para a escolha do mesmo.
Boas festas!

02 agosto 2011

Um Dia - David Nicholls (2009)


Sim é uma novela, um easy reading e coisa e tal, mas também é divertido, inteligente, agradável. Gostei muito de o ler nestes dias horríveis de verão com o vento a chicotear as minhas pernas com os grãos de areia gigantestecos das praias da Arrábida. É um livro que gruda mas não há necessidade de andar alguém a desvendar mistérios da Opus Dei em perigo de vida. O sentido de humor agradou-me, as referências aos anos oitenta, os clichés, os diferentes modos de se viver a vida. Também teve a sua piada o livro ser sobre o dia 15 de Julho, dia de St. Swithin, que pelos vistos é um género de S. Pedro para os ingleses, e eu ter sentido urgência de o ler em redor desta data e por cá estar um mau tempo dos diabos.

Nos últimos quatro anos, tinha visto um sem-número de quarto assim, semeados por toda a cidade como locais de um crime, quartos onde nunca se estava a mais de dois metros de distância de um álbum de Nina Simone, e, apesar de raramente ter visto duas vezes o mesmo quarto, era-lhe tudo demasiado familiar.(...); havia fotos tiradas com flash de amigas da universidade e da família numa confusão entre os Chagalls e os Vermeers e os Kandinsky, os Che Guevaras e os Woody Allens e os Samuel Becketts. Aqui nada era neutro, tudo traduzia uma lealdade ou opinião. O quarto era um manifesto e, com um suspiro, Dexter reconheceu-a como uma dessas raparigas que usavam "burguês" como termo de insulto. (p. 17)


"O amor romântico é afinal isto, um programa de talentos? Come uma refeição, anda comigo para a cama, apaixona-te por mim e eu prometo-te anos e anos deste entretenimento de primeira?" (p. 156)


Muitas referências a Thomas Hardy e Charles Dickens, que pelos vistos está novamente na berra, tendo em conta o filme Here After que por acaso vi esta semana.
Estive vai não vai para transcrever a passagem de Tess of the d'Urbervilles, de Thomas Hardy, que aparece na página 401 e que dá o mote à história, mas provavelmente revelaria demasiado da essência do livro e atendendo a que alguns dos que passam por cá ainda o poderão ler, perderia parte da piada se assim o fizesse. Em vez disso deixo-vos com a BSO deste livro que ouvi pela primeira vez há 5 minutos atrás.


E já agora o trailer da versão cinematográfica que sai em setembro.

15 julho 2011

Hotel Du Lac - Anita Brookner (1984)

Com muita pena minha, na segunda vez que escrevo sobre uma escritorA vou ter que escrever pela segunda vez que não gostei do livro por aí além. Fez-me lembrar "O Véu Pintado" do Somerset, com o despertar de uma mulher que envereda por caminhos mais fúteis, apesar de Edith, personagem principal deste livro, não ser fútil de todo mas está a passar por uma fase que se deixa seduzir por futilidades. Não há pachorra. Na capa pode ler-se "Uma história de amor esmagadora." escrito por alguém do jornal "The Times" que pelos vistos gostou do livro e com isto concluo que qualquer paixoneta hoje em dia é um amor esmagador. Na minha singela opinião a construção das personagens é feita de forma interessante mas a história em si é fraquinha e para venceder do Booker Prize faz-me pensar que ninguém escreveu nada de jeito em 84.

"Tenho sido demasiado dura com as mulheres", pensou, "porque as compreendo melhor do que compreendo os homens. Conheço-lhes bem a vigilância, a paciência, a necessidade de se afirmarem bem-sucedidas." (p.94)

27 abril 2011

Travessuras da Menina Má - Mario Vargas Llosa (2006)

Quando leio pela primeira vez um livro de um determinado escritor sinto muitas vezes dificuldade em apanhar o ritmo certo, entranhar-me no mood da escrita, descobrir o tom apropriado. Sempre que pego num Nobel que não conheço, temo isso. Pois bem, medos à parte, a sensação que tive ao ler pela primeira vez Mario Vargas Llosa foi de uma familiaridade injustificável. Entrosei-me bem no género de escrita, pode-se dizer. Foi fácil de entrar no compasso, mas com isto não pretendo dizer que é uma escrita simples. De uma beleza suave e natural, com uma poesia e musicalidade que associo aos escritores sul-americanos.
É magistral como Llosa nos vai contando a História do Mundo, em particular de acontecimentos relevantes ocorridos ao longo do século XX em Lima, Paris, Londres e Madrid, sobrando ainda espaço para nos apresentar Tóquio no meio das aventuras e desventuras amorosas de Ricardo Somocursio e da sua Menina Má que no final acaba por ser nossa também.
Se no último post disse que não fazia questão de ler mais livros do Luís Miguel Rocha, quanto a Llosa estou com vontade de comprar tudo o que encontrar e devorá-los, tal como em tempos fiz com o Gabriel García Marquez. Sabendo que a 81º edição da Feira do Livro de Lisboa começa amanhã vai ser uma autêntica tentação e temo que traga para casa mais um ou dois livros desta colecção.

O que podemos ler sobre esta obra no site:

18 abril 2011

A Mentira Sagrada - Luís Miguel Rocha (2011)

Uma curiosidade primária fez-me comprar este livro e foi com algum desdém que o trouxe para casa - "Quem é este escritor português do qual nunca ouvi falar e é o primeiro no top do New York Times?". Muito desconfiada lá o comecei a ler, estando à espera de mais um discípulo do Dan Brown que ia bater na mesma tecla.
Quanto à técnica de escrita, não me enganei. Mantém os mesmos truques que Brown para nos agarrar que nem lapas ao enredo. Sem Jack Langdon, e com uma percentagem maior de contextualização histórica e menos floreados, gostei mas não faço questão de comprar mais um livro do moço já que pelos títulos as suas outras obras não fogem muito ao tema e o que é demais também enjoa. É inevitável que nos lembremos de Anjos e Demónios o que me fez lembrar que ainda não vi o filme (vivo no impasse entre o facto de não ter gostado da versão cinematográfica do Código e a opinião quase generalizada que o 2º é melhor e não se compara). Recordo também com algum pesar que ainda não li nenhum livro do José Rodrigues dos Santos, ao contrário de várias pessoas que me rodeiam, o que tem vindo a ser uma falha enorme no meu reportório.
Esta escolha foi óptima para ganhar um ritmo de leitura nestas "férias" que estão a saber que nem ginjas e tendo em conta que se despacha facilmente em 4 dias, é uma opção válida, e muito apropriada tendo em conta o tema (referiro-me à Páscoa e não à revolução de 2ª), para o fim-de-semana prolongado que se avizinha.

"A carruagem ia cheia de pessoas. Executivos a ultimar gráficos e tabelas para usar numa qualquer reunião importante, como as eram todas, muçulmanos que falavam ao telefone como se fossem os donos do mundo, turistas, casais, solitários à descoberta, mulheres bonitas, homens lindos, uns que liam livros eruditos de um qualquer filósofo francês com um título deslumbrante ou monótono, outros que liam o bestseller do momento que falava de mentiras sagradas e segredos do Vaticano, Sumos Pontífices e escolhidos de Deus, crimes por resolver e ditongos de histórias mal contadas. "(p. 175)

31 março 2011

5º Aniversário

28 livros em 5 anos... podia ter sido melhor, mas a verdade é que continuo a fazer um balanço positivo desta experiência, deste espaço onde me "obrigo" a reflectir, de uma forma mais séria, nos livros que acabei de ler e a praticar a escrita, essa eterna necessidade e obsessão. Era bom que hoje tivesse terminado algum livro mas tal não aconteceu, sendo assim, e por hoje ser dia de festa, deixo-vos com a última coisa de jeito que escrevi, já lá vão 4 anos :(

Colisão

No momento certo de uma distracção invulgar
foi fácil para a ironia nos encontrar
onde os contratempos dos nossos passatempos
finalmente se cruzaram inesperadamente.

Não te ouvi travar.
O ruído de um passado silencioso ensurdeceu-me.

Nos segundos pousava apenas uma mão queimada
que escondia a cobardia da mentira
que roubava coragem à verdade desse instante.
Nas horas sinto apenas o teu cheiro.

Não te vi fazer sinal de luzes.
O brilho de um presente renegado cegou-me.

Flutuo na leveza da realidade não vivida
bebo do vazio que sempre existiu
do desejo louco do equilíbrio torto
da eterna sedução da rotina sempre à mão.

Encontrámo-nos numa curva
quando ambos preferimos rectas.

E agora resta o teu abraço em forma de poema
quando já me afasto em pezinhos de lã
no momento certo de uma distracção vulgar
para a dor da tua ausência não acordar.

T - 24-03-2007

07 março 2011

Matteo perdeu o emprego - Gonçalo M. Tavares (2010)


Quem preconizou que eu ia gostar deste livro, acertou em cheio! Palavras para quê? O homem é um artista. A todos os que leram Jerusalém e gostaram, aconselho vivamente a pegarem neste livro e a devorarem-no numa bela tarde soalheira de Inverno.
Apetece-me ler GMT até enjoar. No 3º capítulo entendi a lógica dos nomes, preocupada em como os ia decorar, e fiquei contente como uma miúda, quando provavelmente a maioria descobriu isto mais cedo (bastaria olhar com atenção a contra-capa).
As fotos de manequins dos anos 80 são macabras e inicialmente deixaram-me bastante desconfortável, mas com o tempo fui-me habituando e passaram a ser um apoio curioso no reconhecimento dos personagens. É um livro sobre lixo, prostitutas, ordem vs caos, racionalidade vs loucura. Continua a ser evidente um certo gosto do GMT pela Matemática talvez para servir de porta-estandarte para a racionalidade. Achei piada à analogia geométrica feita pelo próprio autor, relativamente a esta obra, quando já eu tinha tentado fazer algo semelhante em relação ao Jerusalém, aqui neste blog, há uns tempinhos atrás. Espero viver tempo suficiente para o ver ganhar o Nobel.

"O controlo, sempre essa ansiedade." (p.189)

E para me pôr a explorar as funcionalidades de um site recomendado por uma amiga, aqui fica o meu esquema de popplets, relativo ao encadeamento das personagens deste livro... uma pequena brincadeira.

26 janeiro 2011

Ao cair da noite - Michael Cunningham (2010)

It's alive!! Depois de mais de 4 meses sem dar notícias cá reapareço para falar de mais um livrito que acabei de ler. What a shame!
Clicar no play antes de continuar a ler...
Julgo que Cunningham gosta sempre de estabelecer a banda sonora dos seus livros e por isso inclui na narrativa várias referências a músicas e bandas (Beatles, Sigur Rós, etc.). Foi assim que ouvi pela primeira vez os Styx e a música "Come Sail Away". Não é especialmente do meu agrado, mas soube bem ler um livro cuja acção se desenrola na ilha de Manhattan, relembrar as ruas, os museus, a correria, o Soho, Tribeca, Little Italy e Chinatown embalada por esta introdução melancólica em piano, transportando-me novamente para o saudoso e querido mês de Agosto. Mas pronto, parece que o meu fascínio pelo Cunningham foi-se de vez. Gostei do livro, mas não me deixou extasiada como os 3 primeiros pois é como diz o ditado "Não há sol que sempre dure nem mal que nunca acabe." (adoro provérbios :P). Mais um livro sobre a beleza, o amor e a finitude de tudo isso. Com 30 anos gosto de continuar a acreditar que há coisas que duram para sempre :) Podem suspirar "Ahh, a ignorância é uma benção", que eu não me importo. Continuo a preferir o "Sangue do meu Sangue".

Muitas referências a grandes nomes da literatura como Emma Bovary do Gustave Flaubert (recorrente), Anna Karenina do Tolstoi (previsível), Gatsby de Fitzgerald (será que alguma vez vou ler?) e Roaskolnikov do Dostoievski (relembrou-me as minhas sucessivas tentativas falhadas em terminar o "Crime e Castigo").

"Interessamo-nos por eles por não serem admiráveis, por serem como nós, e por grandes escritores lhes terem perdoado isso." (pág. 153)
"(...)Claro que todos eles, cada um deles, transportam dentro de si uma jóia de si próprios, não apenas as feridas e as esperanças, mas uma qualidade interior, algo a que Beethoven poderia ter chamado alma, aquela incandescência que transportamos em nós, o simples facto de estarmos vivos, toda ela enredada no sonho e na memória, mas diferente do sonho e da memória, diferente do momento (atravessar uma rua, sair de uma padaria); aquela infinidade menor, o universo privado em que sempre nos deslocámos e que atravessaremos sempre de skate ou à procura de moedas no fundo de uma carteira ou indo para casa com os miúdos aos gritos. Que disse Shakespeare? As nossas vidas mesquinhas estão envoltas em sono." (pág. 293)

Também existem várias referências a Thomas Mann e à sua "Montanha Mágica" talvez para enfatizar uma obsessão pela decadência, a Flannery O'Connor e a Kafka.
Alguém, algures, num dia destes, disse-me que quando lê um artigo do meu blog fica sem vontade de ler muitos dos livros (bem sei que já me disseram o contrário) e apesar de não ser possível agradar a Gregos e Troianos, vou passar a transcrever as sinopses das contracapas, apesar de encontrar muitas vezes incoerências com o verdadeiro conteúdo da obra (este não foge à regra) onde o toque Zaracotriniano não chega:

Contracapa:
Peter e Rebecca Harris, na casa dos quarenta e a viver em Manhattan, aproximam-se do apogeu das suas carreiras em arte: ele, negociante; ela, editora numa boa revista da especialidade. Com um moderno e espaçoso apartamento, uma filha adulta a estudar na universidade de Boston e amigos inteligentes e animados, levam um invejável estilo de vida urbano contemporâneo e parecem ter todas as razões para serem felizes. Mas é então que o irmão de Rebecca surge em cena. Extremamente parecido com ela, mas muito mais novo, Ethan (conhecido na família como Mizzy, ("O Erro") resolve visitá-los. Na sua presença, Peter começa a pôr em causa os artistas, o trabalho destes, a sua carreira - todo o mundo que construíra com tanto cuidado.

Tal como o aclamado romance As Horas, vencedor do Prémio Pulitzer, esta nova obra de Cunningham constitui uma visão dolorosa do modo como vivemos hoje em dia. Plena de peripécias inesperadas, faz-nos pensar (e sentir) com profundida nas utilizações e no significado da beleza e no papel do amor nas nossas vidas.

"No seu romance mais concentrado - um enaltecimento agridoce da criatividade humana - Cunnigham, mestre da escrita vencedor de um Prémio Pulitzer, combina erotismo e estética para orquestrar uma admirável crise da alma. Inspirando-se em Henry James e Thomas Mann, assim como nos artistas Agnes Martin e Damien Hirst, produz uma história belíssima, espirituosa, filosófica e urbana sobre os mistérios da beleza e do desejo, da arte e da ilusão, do tempo e do amor." Donna Seaman, Booklist (leitura recomendada).

Happy New Year! e prometo que esta fase de interjeições não lusas vai passar.

"Bater num caldeirão para fazer dançar um urso, quando desejaríamos enternecer as estrelas."

30 agosto 2010

Comboio Nocturno para Lisboa - Pascal Mercier (2004)

Não tenho o mínimo receio de colocar desde já este livro no meu Top10. Este híbrido de "A Sombra do Vento" e de "Um Mundo de Sofia" foi muito do meu agrado. É verdade que demorei imenso tempo a lê-lo, mas ao contrário de "O Símbolo Perdido", este é um livro para se ir saboreando calmamente, degustando com prazer cada frase.

"Quando leio o jornal, ouço rádio ou presto atenção ao que as pessoas me dizem no café sinto, cada vez com mais frequência, tédio, para não dizer náusea, perante sempre o mesmo chorrilho de palavras iguais, escritas e ditas - sempre as mesmas expressões retóricas, sempre os mesmos floreados e metáforas. E o pior é quando me escuto a mim próprio e tenho de constatar que também eu me limito a alinhar sempre pelos mesmos padrões." (pág. 36)

Em Setembro, empolgada por mais um Interrail que tinha acabado de fazer, e já com saudades da sensação de liberdade que uma viagem de comboio me proporciona, peguei neste livro fascinada pelo título e qual a minha surpresa quando começo a descortinar que a acção inicial decorre na última cidade que tinha visitado - Berna. Fiquei com um sorriso parvo estampado na cara e de imediato este livro adquiriu um lugar especial.

"Não se vêem pessoas como se vêem casas, árvores ou estrelas. Vemo-las na expectativa de as podermos encontrar de uma certa maneira, tornando-as assim num pedaço da nossa própria interioridade. (...)Na verdade, nem sequer conseguimos alcançar, de uma forma segura e imparcial, os contornos exteriores de uma outra pessoa. A meio caminho, o nosso olhar é desviado e turvado por todos os desejos e fantasmas que fazem de nós a pessoa especial e insubstituível que somos." (pág. 86 e 87)

Um colega, que também leu o livro, contou-me que na sua opinião o autor no final não encontrou o que procurava... não fiquei com a mesma sensação. É evidente que estamos sempre à espera de um desfecho de cortar a respiração, ou de uma revelação completamente inesperada, ou de qualquer coisa, que neste caso em parte não existe, mas não penso que tenha ficado um vazio por preencher, apenas uma nostalgia imediata por termos terminado de ler o livro e um relembrar das palavras Carpe Diem que toda a gente aprendeu no Clube dos Poetas Mortos. Talvez o livro seja sobre liberdade, sobre as viagens que fazemos para nos descobrirmos a nós próprios, ou talvez não seja sobre nada disso. É um livro simplesmente bom de se ler... é bonito! Cativa desde as referências ao "Livro do Desassossego" do Pessoa, desde a forma de descrever Lisboa e os lisboetas, desde a personagem principal, mas ausente, Amadeu de Prado. Espero que gostem tanto como eu.

"É por isso que não podemos desejar honestamente desconhecer a experiência da irritação, substituindo-a por uma indiferença obstinada que em nada se distinguiria da insensibilidade. A irritação também nos ensina a ver quem somos. É por isso que o que eu quero saber é o seguinte: em que é que poderia consistir educarmo-nos na irritação, desenvolver uma cultura da irritação que nos permitisse aproveitarmos o seu momento de conhecimento, sem sucumbirmos ao seu veneno?" (pág. 370)

22 abril 2010

O Símbolo Perdido - Dan Brown (2009)

Passou mais de um ano sem publicar um simples ditongo que fosse... what a shame! Fiquei surpreendida quando vi a datagem do último post. Credo... não me canso de dizer que o tempo passa, ai rapaz o tempo passa. Não é que não tenha lido absolutamente nada nestes últimos tempos, mas terminar um livro foi raro e os que terminei não me deram o empurrão necessário para fazer o login e actualizar este cantinho cibernáutico. Deixemo-nos de lamechices e passemos ao que interessa.
Uma coisa é certa, o livro que motiva o post de hoje pode não ser uma obra prima mas que espicaça fortemente o bichinho que poderá existir dentro de nós em visitarmos os Estados Unidos da América, em especial Washington, disso não tenho dúvidas - tanto é que planeio fazê-lo muito em breve. Para quem já não lê Dan Brown há mais de 5 anos, e anda a precisar de algo fácil, interesessante e viciante, esta é uma boa opção. A meio do livro ainda pensei: "Cá está! Mais do mesmo..." - mas a verdade é que este senhor tem um jeitinho especial para nos grudar ao maço de 571 páginas que constituem a sua última obra, e rapidamente começamos a stressar com as horas de sono preciosas que estamos a perder, mas não o conseguimos evitar. Para além de Washington, o livro fala de Maçons, Mistérios Antigos, ciência noética, quadros famosos que dão pistas (desta vez do Durer), tudo envolto nas grandes aventuras que só acontecem a Robert Langdon - desta vez não salta de um helicóptero, mas as cenas mirabolantes desta aventura não ficam atrás das restantes.
Deixo-vos com um "brownie" (perdoem-me a piada seca, mas a esta hora da noite já não me controlo) que espero que apreciem:

"Quando frequentava a Phillips Exeter Academy, Langdon era obrigado a usar gravata seis dias por semana e, apesar das alegações românticas do reitor de que a origem da gravata remontava à fascalia de seda usada pelos oradores romanos para aquecerem as cordas vocais, sabia que, etimologicamente, cravat derivava na verdade de um bando cruel de mercenários "croatas" que punham lenços de pescoço atados com um nó antes de partirem para o combate. Até hoje, este antigo acessório de batalha continua a ser usado pelos modernos guerreiros do escritório, que esperam assim intimidar os seus inimigos nas batalhas travadas diariamente em salas de reuniões." (pág. 22)

09 abril 2009

A Praia de Chesil - Ian McEwan (2007)

"A cólera. O demónio que conseguira controlar anteriormente, quando pensava que a sua paciência estava prestes a abrir brechas. Como era tentador ceder-lhe, agora que estava sozinho e podia deixá-la arder. (...) E que mal havia num mero pensamento? Era preferível acabar com ele agora, enquanto ali estava, meio nu entre destroços da sua noite de núpcias." (pág.105)

Este singelo livro de 128 páginas, conta-nos a breve história de Edward e Florence, dois recém-casados, repletos de medos, angústias e desejos na sua noite de núpcias.
A arte de pensar de duas pessoas que se relacionam é o ex-líbris do livro - McEwan descreve pormenorizadamente o rol de dúvidas que temos quando nos relacionamos com outros. O fazer isto para não parecer aquilo, a interpretação de cada gesto. Acaba por ser paranóico mas tem a sua piada - é a racionalidade a interferir com as simples emoções. E depois acabam por existir pequenos gestos que deixamos de fazer por medo, palavras que não dizemos por orgulho, até que chegamos à conclusão que amar não é algo que seja linear sendo impossível criar uma fórmula para entender este sentimento que não se percebe se é altruísta ou egoísta.

Ainda ontem uma amiga dizia-me que Danielle Steel era a escritora típica da americanazinha coitadinha, que nasceu nos confins do mundo e que se torna uma estrela de Hollywood. Por sua vez, Ian McEwan, a meu ver, é o escritor típico do grande amor interrompido por um "pequeno" erro que estraga sempre tudo. Não é que queira comparar este autor com Danielle Steel, porque na verdade nunca li nada dela, mas a verdade é que temo que os livros de Ian McEwan batam sempre na mesma tecla, tendo em conta o livro que acabei de ler, o filme A Expiação (ainda não li o livro) e o resumo que li dos Cães Pretos. Enfim, a ver vamos.

"Nada era nunca discutido e eles também nunca sentiam a falta de uma conversa íntima. Esses eram assuntos que estavam para além das palavras, para além da definição. A linguagem e a prática da terapia, a aceitação de sentimentos diligentemente partilhados, mutuamente analisados, ainda não tinham entrado em circulação generalizada. Embora se ouvisse falar de pessoas abastadas que faziam psicanálise, ainda não era habitual uma pessoa considerar-se em termos de quotidiano como um enigma, como um exercício de narrativa histórica, ou um problema à espera de ser resolvido." (pág. 22)

19 março 2009

A Solidão dos Números Primos - Paolo Giordano (2008)

Chamar-lhe o melhor romance de 2008, como anunciava a fita vermelha que envolvia o corpo do livro, parece-me exagerado. Não é que eu tenha lido muitos romances editados o ano passado, mas mesmo o Destino Turístico não lhe fica atrás. Lê-se rápido, de um só fôlego - é uma vantagem - mas não me deixou estupefacta, como gosto de ficar. Se eu fosse a marketter encarregue deste livro, mandaria escrever na fita vermelha - "Melhor Prenda de Natal - 2008". Aposto que a maioria das pessoas dá-lhe no mínimo um 7 (de 0 a 10), pois é de agradável paladar.

Os primeiros capítulos são dedicados a dois acontecimentos trágicos que tranformam o romance entre um geek e uma anorética numa dark novel, ao mesmo tempo que dá carisma a este relacionamento e que distingue estes dois outsiders dos restantes mortais. Mas, como já disse anteriormente neste blog, quem é que não se sente E.T., nem que seja uma vez por outra? Enfim, a eterna saga dos inadaptados.

Paulo Giordano, autor do livro, é um jovem Físico italiano de 25 aninhos. Geek! :D

O livro tem a particularidade de me ter ensinado o que são números primos gémeos, o que não deixou de ser interessante. Foi também curioso andar por Amesterdão e ver publicidade deste livro espalhada por toda a cidade como que a relembrar-me que ainda não tinha escrito o post.

Como é hábito, deixo-vos com uma das minhas passagem favoritas, que me fez lembrar paranóias dos tempos de faculdade:

"Durante os quatro anos da faculdade a matemática conduzira-o aos recantos mais remotos e fascinantes do raciocínio humano. Mattia recopiava as demonstrações de todos os teoremas que encontrava no seu estudo com um ritualismo meticuloso. (...)Quando dava por si a hesitar em demasia numa passagem, ou se enganava a alinhar uma expressão após um sinal de igual, empurrava a folha para o chão e recomeçava do princípio. Chegado ao fim daquelas páginas densas de símbolos, de letras e números, escrevia a sigla cqd e por instantes tinha a impressão de ter posto em ordem um pequeno pedaço do mundo. Então, recostava-se na cadeira e cruzava as mãos sem as fazer roçar uma na outra."

08 janeiro 2009

O Destino Turístico - Rui Zink (2008)

É sempre confortável encontrar um livro que após largos meses sem conseguirmos terminar um, nos apega e ficamos desejosos de chegar a casa só para ler mais um bocadinho. Felizmente foi o que me aconteceu com "O Destino Turístico" e agora já sinto saudades por hoje à noite não o ler. Gosto muito da escrita do Zink, já o conhecia, mas ainda não tinha lido um livro dele até ao fim. Parece que escreve para si próprio. Por vezes julgamos conseguir descortinar nitidamente as voltas que vai dando à narrativa, mesmo os recuos que faz quando uma ideia não se afigura tão genial como inicialmente aparentava, digo eu...
Este conto sobre Greg, ou Guereg, como queiram, que pretende morrer mas que não tem coragem para se suicidar, vive de uma ideia criativa que inicialmente nos reporta para paragens longíquas, levados por uma realidade estranha do espaço da acção que se assemelha mais a paragens no médio oriente, mas que aos poucos nos faz suspeitar que quiça esta "zona" onde decorre a narrativa afinal não é assim tão longe.
Se não me engano, há tempos ouvi o Rui Zink contar uma história de ter sido processado por ter dado um pontapé a um carro que não o deixou passar numa passadeira... foi engraçado recortar este acontecimento do livro.

"Greg atravessou o pátio e teve o segundo não-déjá vu do dia. Por uma razão qualquer, quase tinha a certeza de que ia encontrar a jornalista e o câmara à beira da piscina. (...) E lá não-estava ela, exactamente na mesma posição em que no dia anterior. (...)Um não-déjá vu era, de certo modo, simultaneamente o oposto e o dobro de um déjá vu. Este, o produto original, consistia na sensação estranha de voltar a ver uma cena tal & qual nos recordávamos de a ter vivido. Tendo isto em conta, a não-repetição da cena era, simplesmente, a não-repetição da cena. Um não-acontecimento. E um não-acontecimento era, por definição... enfim, um não acontecimento. Algo que não acontecera. Fumo. Fumo de nada. Nada. Só que, por outro lado, o facto de uma pessoa esperar um déjá vu não faria, desde logo, com que isso fosse (até certo ponto) um déjá vu?"

03 setembro 2008

A Peste Escarlate - Jack London (1912)

Ligeiramente mais leve que os restantes livros desta colecção, A Peste Escarlate entreteve-me bastante no início das férias que agora terminam (espaço para um suspiro prolongado). Reconheço em alguns escritores norte-americanos um estilo a que geralmente apelido de cinematográfico e de facto a escrita de Jack London tem um ritmo de 7ª arte, envolvendo-se em paisagens e personagens que com prazer compomos recorrendo ao nosso imaginário. Lembrou-me filmes como Eu sou a Lenda ou O Acontecimento e cheguei mesmo a suspeitar que o Shyamalan ter-se-á inspirado neste livro, mas atenção, quem não gostou do filme não renegue à partida o livro. Fácil e rápido de ler, sustentado numa ideia original, tendo em conta que foi escrito há quase 100 anos, recomendo a todos.

O Ingénuo - Voltaire (1767)

Interessante mas nem por isso fascinante, O Ingénuo acaba por ser a epopeia de um hurão puro e frontal por terras europeias, resumida em menos de cem páginas. Gostei especialmente do final que de seguida transcrevo:

" O velho Gordon viveu com o Ingénuo até à hora da morte na mais íntima amizade; teve também uma abadia e esqueceu para sempre a "graça eficaz" e o "concurso concomitante". Escolheu para divisa: Para alguma coisa serve a infelicidade.
Quantos homens de bem no mundo terão dito: A infelicidade não serve para nada! (pág. 93)"

30 julho 2008

Coração Débil - Fiódor Dostoiévski

"Dos seus olhos caíram lágrimas sobre a mão de Arkádii.
- Vássia, se soubesses a amizade que te tenho, não me fazias essa pergunta.
- Tens razão, Arkádii; mas eu não consigo perceber bem porque motivo és assim tão meu amigo. Quero que saibas, Arkádii, que esse teu afecto me pesa verdadeiramente. Quantas vezes, quando me deito, fico a pensar em ti - porque penso sempre em ti antes de adormecer - e o coração põe-se-me a bater com tanta força, tanta força... Por tu seres tão meu amigo e eu não ter maneira de te mostrar a minha gratidão..." (pág. 64)


(ler as próximas três palavras com sotaque britânico)
Drama, drama, drama!
Dostoiévski não desilude. As personagens que encontramos neste conto são todas uns pé-rapados, paranóicas e lamechas - choram mais facilmente do que eu (onde é que isto já se viu!). Mas a verdade é que Fiódor é um artista a transformar o delírio de um homem que vive obcecado em não defraudar as expectativas que os outros têm dele numa suave dança até à loucura. Esta é uma das suas primeiras obras, escrita em 1848, mas pelos vistos já fideliza um estilo muito sui generis do escritor. Estou delirante por finalmente ter terminado uma obra dele, tendo em conta que já tentei atacar o Crime e Castigo inúmeras vezes, mas não consigo ultrapassar a famigerada barreira das primeiras 100 páginas - o facto deste livro ter somente 88 ajudou :D.

Este é o primeiro livro de uma colecção de 30, que o Diário de Notícias resolveu oferecer aos seus leitores durante este Verão. Saem todos os dias expecto às terças e quintas. A oferta de hoje foi "A Minha Mulher" de Anton Tchekov. Para os possíveis interessados, aqui fica o link para o site do Diário de Notícias, onde podem encontrar a lista completa dos livros que pertencem a esta colecção e a data em que são oferecidos com o jornal.

10 julho 2008

Rosa Vermelha em Quarto Escuro - Pedro Paixão

"Ela não gosta de escolher. Escolher é sempre anular todas as outras possibilidades.(...) Entretanto tomou várias decisões. O que ela evita sempre que possível. Tomar uma decisão é eleger uma possibilidade entre muitas outras que ficam preteridas. Pode ser injusto." (pág. 50 e 179)

Eu tenho um gosto secreto em poder escolher. É poderoso e enche-me de liberdade. Não me martirizo com as injustiças que podem advir daí. Sendo assim, apesar das inúmeras vezes em que me identifiquei com a personagem principal deste livro, também são muitas as diferenças evidentes que me separam dela. Mulheres, escritas por um homem... Podia meditar sobre isto mas não me apetece.

"Ela não consegue suportar a desconfiança. É o pior dos sentimentos. Dá-lhe dores físicas. A desconfiança é um cancro que vai roendo a relação entre as pessoas até já não ficar nada delas próprias. Nada há de mais raro e precioso do que a confiança. Muito difícil de ganhar, muito fácil de perder. " (pág. 79)

Sinto-me com vontade em fazer uma ligeira comparação com O Véu Pintado. Trata novamente do despertar de uma Mulher para a vida , mas desta feita muito mais ao meu género :) O livro é todo dedicado a ela, à sua inteligência e desorientação, aos seus desejos e castrações, às suas reflexões e limitações.

"Ela tem dificuldades em mentir. Nota-se logo, atrapalha-se, os olhos traem-na. Ela tem uma espécie de admiração pelas pessoas que sabem mentir. Mentir aqui implica ter de mentir em seguida ali e assim por diante. Uma mentira precisa de outra mentira para se confirmar como mentira. Nunca poder deixar de mentir." (pág. 66)

Apercebo-me que já não lia um livro do Pedro Paixão há pelo menos 6 anos. Os seus pequenos livros publicados pela Cotovia eram a minha fiel companhia nas viagens diárias de metro. Continua a escrever aos soluços, a sua principal característica, mas notei algumas diferenças na natureza da sua escrita: muito mais erótica e ligeiramente menos idealista.

"A simpatia é uma forma superficial de alguém se mostrar agradável por algum motivo. Perdido o motivo corre-se o permanente risco de se converter em brutal antipatia. (...) Muito diferente de ser educado. A educação mantém a devida distância. A simpatia pretende passar a estúpida ideia de que vamos ser para sempre muito amigos. Algo detestável." (pág. 118)

Podemos não aprender nada de jeito com este livro, mas toca em pormenores do nosso quotidiano, especialmente em subtilezas do relacionamento entre seres humanos, que me deixam intrigada e dou por mim a reflectir nesses mesmos pormenores constantemente. Podem achar que tudo o que o Pedro Paixão escreve é filosofia barata mas não posso esconder que em certa medida aprecio essa filosofia. Convém é não abusar senão enjoa.

"Uma pessoa não é quem quer ser, não faz o que gostava mais do que tudo fazer, não dita a vida que a leva consigo. (...) Salvo nos momentos de paixão em que vivemos a tremenda certeza de estarmos a ser quem somos. (...) A paixão é um engano em que nos queremos enganar mais do que tudo. Uma partida pregada pela vida que depois nos reconduz ao lugar quotidiano ao qual pertencemos e nos vai construindo e desfazendo. Dia a dia, todos os dias. O castigo de ter querido ser mais do que se é. Do que se pode. Ela pensa várias vezes em coisas deste tipo. Coisas que apelida do tipo inútil. Que não parecem ajudar. Sem aprofundar muito. Com receio de pensar demais nisso e ficar retida algures numa dúvida cheia de perigos." (pág. 11 e 12)

Pegando em palavras do autor, pode-se dizer que nesta história não acontece quase nada, pois o importante não é o que acontece mas o que se faz com o que acontece.

"O Luís pede mais uma garrafa de vinho verde que não é verde mas sim amarelo transparente e diz: avançamos todos ao mesmo tempo, no mesmo tempo a atravessar a eternidade. Deve haver uma parte de nós que passa com o tempo. Outra não passa porque vive desde sempre na eternidade. Quando leio Píndaro ou Platão sinto que não passou tempo algum, que nos encontramos num canto da eternidade, o nosso café, e sinto-me deveras feliz."(pág. 188)

Eu gostei, é muito ao meu género e já estou com saudades de o folhear.

" A vida é uma prodigiosa viagem em que nos vamos reencontrando a nós próprios." (pág. 123)

Agora quanto à minha paranóia de não gostar de ler livros emprestados, achei engraçado transcrever-vos esta última passagem:

"Quando estou a ler um livro que pertence a outra pessoa esse livro não será meu enquanto o estou a ler? Mais meu do que de quem o comprou? Roubar um livro não será o único roubo que não merece castigo?" (pág. 59)

09 junho 2008

Contos de Morte - Pepetela

Acidentalmente, mas o que torna o feito curioso, li de seguida os dois primeiros números da novíssima colecção "Mil Horas de Leitura" da editora Nelson de Matos. O número dois, que me foi oferecido em mais um aniversário (obrigada), foi uma agradável surpresa e serviu para me estrear nas escritas de Pepetela. Gostei. Reportou-me para uma África "familiar", fazendo-me lembrar as histórias que o meu avô me contava como retornado inconformado. Tal como Mia Couto (que é mencionado neste livro), a forma de escrever transmite o calor de outras paragens, mas com Pepetela, tanto quanto pude entender, existem momentos repentinos de inesperada violência que dão uma suave acidez a cada conto.

Constituído por 5 histórias inéditas, estas estão organizadas da seguinte forma:
*A Revelação (1962)
*O Caixão do Molhado (2001)
*Mandioca de Feitiço - para Miguel Torga (2001)
*Estranhos Pássaros de Asas Abertas - introdução ao canto V de Os Lusíadas (2003)
*O Nosso País é Bué (1999)

19 maio 2008

Lavagante - José Cardoso Pires


"Sei, como todos nós sabemos, como pesa o tempo vencido sobre alguém que se aventura a descrevê-lo. É um eco a esfumar as palavras, uma ironia que nos contempla de longe, um pudor."

Um livro perfeito para se ler quando ficamos sem companhia para uma boa conversa e assim, há falta de melhor, fazemo-nos convidados ao serão de 2 amigos, que desabafam sobre desamores, numa agradável noite de verão, sentados debaixo de um alpendre.
Lê-se numa noite só. Não arrebata mas aconchega.
Tal como no "Não só mas também" do Abelaira, pensei muitas vezes no caso de o autor ainda ser vivo - será que as suas decisões finais quanto ao emprego deste ou daquele nome/verbo/adjectivo seriam as mesmas da pessoa encarregue destas edições póstumas ao falecimento do autor? Por um lado penso que estas edições roubam vernaculidade à obra inacabada, que ao receber estes retoques de mãos estranhas, perde um certo encanto virginal, por outro gosto simplesmente de as ler, mas sempre com medo de me desiludir. Os pormenores, os pormenores... os pormenores são muito importantes! Como seria bom conseguir ler um livro sem me desperdiçar a pensar nestas coisas...

25 janeiro 2008

Os Paraísos do Caminho Vazio e outros contos - Rosa Liksom

"A mulher junta os ossos roídos do frango num grande monte ao canto da mesa e arrota ruidosamente." – são belas frases como esta que podemos encontrar ao longo deste compêndio de contos.
Lá consegui contrariar a minha panca de só ler livros meus – ridículo e dispendioso, eu sei – e li este emprestado por andar a reclamar que estou numa fase em que só me apetece ler histórias frias e cruas, como sushi. Na verdade, se o livro não me tivesse sido gentilmente emprestado e, por outro lado, eu tivesse simplesmente pegado nele, por acaso, numa livraria qualquer, estou certa que não o traria comigo, isto porque as primeiras páginas são tão verbalmente violentas que se quisesse transcrever apenas uma única frase, este blog teria de passar a ter uma bolinha vermelha no canto superior direito.
Basicamente, trata-se de uma colecção de pequeníssimas histórias onde o mais absurdo ou perverso acontece sempre, o que faz com que o desfecho seja sempre demasiado previsível. Sim, são frias, sim, são cruas, mas não encheram as medidas do meu vazio glaciar. De qualquer forma, serve o presente post para inaugurar a minha apreciação de um livro cujo autor é do sexo feminino. Quando terminei de o ler, pensei que gostava de ter a experiência de ler um livro do qual desconhecesse o sexo do autor, isto porque dei por mim muitas vezes a dizer, enquanto percorria as páginas deste livro – vê-se mesmo que é mulher! E atenção que a escrita de Rosa Liksom está muito longe de qualquer estereotipo de escrita de mulher. Muitas vezes o narrador, e protagonista principal do conto, é um homem; geralmente um homem violento e amargo, mas que ao transparecer a sua virilidade nota-se que só pode ser uma mulher a escrever - ou então sou eu que tenho a mania que consigo captar sempre tudo. Aqui fica um exemplo do que estou a tentar dizer:

"Deixei-a porque queria viver sozinho. Não suporto os cheiros das outras pessoas, nem as caras que fazem, nem a maneira como se sentam, à mesa ou em frente da televisão. Quero viver sozinho porque não preciso de ninguém, muito menos de uma mulher que faz de tudo um problema. E apesar disso, estou aqui sentado neste sofá, pelo sétimo dia, e não penso em mais nada a não ser nela. Não tenho um momento de sossego, porque ela está presente o tempo todo. Isto remexe-me de tal maneira que nem dormir consigo. O coração bate-me da nuca às pontas dos dedos."

Como nota final, devo dizer que achei curioso o uso excessivo da palavra seios ao longo das linhas destes contos o que, na minha opinião, faz com que a escolha da imagem da capa esteja muito bem conseguida.

10 janeiro 2008

A Metamorfose - Franz Kafka

Ano novo, vida nova, com mais actividade neste blog, assim o espero.
Quando sinto necessidade de mudar, recarregar baterias para uma nova fase, agarro-me a velhos companheiros, pelos quais nutro um fascínio especial; daí resolvi reler "A Metamorfose". Verifiquei mesmo agora que tinha iniciado um rascunho sobre este livro a 26-10-2006 - o tempo passa… ai, afinal, rapaz, o tempo passa!
Há alturas em que me parece impensável reler este livro, mas noutras torna-se imprescindível o estranho conforto que encontro no desconforto relatado nestas escassas páginas. Ou nos fascina ou nos repugna. Se é fácil perceber porque nos repugna, o fascínio que também nos pode provocar não é assim tão compreensível. Talvez tenhamos a ilusão que se encararmos o horror de frente tornamo-nos mais fortes, ou seja, acordamos nós próprios com uma carapaça, e um certo sadismo passa a ser contemplação da beleza do feio que julgamos que nos fortalece a alma – imagino muitos a torcer o nariz ao lerem isto. De qualquer forma, acho hipnotizante a forma como o escritor descreve com frieza e simplicidade tudo o que pode haver de menos bonito na vida. Como alguém me disse um dia – Ninguém enfatiza o horrível como Kafka!
Se já conheço esta novela desenxabida porque desejo voltar ao seu ambiente surreal? – tenho andado a tentar responder a esta pergunta e não consigo. Num ambiente hostil, em que um homem vulgar se vê transformado num insecto, observamos ao pormenor o desespero, a agonia, o abandono e, mais assustador do que tudo isso, a sua modesta resignação:

"Sem dúvida, alguém desejara entrar, mas os escrúpulos tinham vencido. (...) Logo de manhã, quando todas as portas estavam fechadas à chave, todos queriam entrar; agora que ele tinha aberto uma e que as outras manifestamente tinham sido abertas durante o dia, ninguém vinha. Aliás, as chaves estavam nas fechaduras, mas do outro lado das portas. (...) Por agora, até de manhã, certamente ninguém viria ver Gregor. Dispunha portanto de muito tempo para reflectir com tranquilidade sobre o modo como iria reorganizar a sua vida."

30 agosto 2007

O pecado de Darwin - John Darnton

Troquei o "Gente Independente" por este livro, como leitura de férias, porque achei que o ambiente gélido islandês não combinava com as praias algarvias onde eu iria estar, por isso fui contra a teoria da grande filósofa Ana Pinheiro que me alertou que as grandes obras deviam ser lidas nas férias, quando estamos mais disponíveis para pensamentos profundos, teoria com a qual eu sempre concordei mas que nunca pus em prática. Acontece que não peguei no livro durante toda a minha estadia pelo sul, porque felizmente ou infelizmente não houveram tempos mortos. Quando regressei e supostamente deveria começar a estudar afincadamente para os exames que tenho em Setembro é que me viciei completamente no livro, passando praticamente noites inteiras acordada, só para devorar mais um capítulo que jurava ser o último que iria ler nessa noite, mas que nunca era. Resumidamente, o livro é um género de "Código Da Vinci" (é incrível a quantidade de vezes que uso este livro para o comparar com outros) onde o herói não é tanto um Indiana Jones, mas mais um Sherlock Holmes moderno onde o Dr. Watson é um rapariga jeitosa, ou seja, é um daqueles livros que se lê muito facilmente, que de certo modo nos envolve, mas que quando terminamos não nos deslumbra como talvez esperaríamos, deixando-nos até um pouco indiferentes.
Gostei de conhecer algumas das personagens que fizeram a viagem mítica com Darwin no Beagle e de revisitar Londres, especialmente Greenwich, que, aquando da minha última visita à capital inglesa, adorei conhecer. De resto não tenho mais nada a apontar, excepto, mais uma vez, as imensas gralhas de impressão. Será que não existem revisores nesta terra?