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17 fevereiro 2017

Galveias - José Luís Peixoto (2014)

Encontro um certo mel na escrita do JLP que me adoça a alma. Lembra-me as férias de verão passadas na aldeia e de todo aquele bucolismo. Sinto-me frustrada quando o meu pai, verdadeiro ex-aldeão, diz que não vê o mesmo na escrita do homem e nem sequer gosta do estilo. Xiça! Porque será? 

Comecei a sentir verdadeiramente a nostalgia da "terra" no livro Em teu ventre e fiz questão de ler alguns capítulos na Lapa ("terra" do pai), o que se repetiu com este Galveias, que me fez lembrar pessoas, lugares e histórias que tão bem conheço e das quais sinto saudades todos os dias. É incrível esta paixão por um lugar que na verdade só começou a ser meu por volta dos 13 anos. 

Bem, mas deixando-me de sentimentalismos e focando-me no livro em si, sem ser este mel que o JLP nos passa, escreve de uma forma cativante a lembrar um thriller. Talvez surja uma certa desilusão no fim à falta de uma apoteose extraordinária, mas talvez dependa do ponto de vista. Podemos considerar que a simplicidade dos factos pode ser vista como uma verdadeira epifania e assim o rematar perfeito desta novela.

Termino com um modesto índice que me deu jeito para me ir relembrando dos personagens. 

Janeiro 1984
Cap. 1 - O acontecimento I.
Cap. 2 - Catarino.
Cap. 3 - O velho Justino.
Cap. 4 - Rosa Cabeça.
Cap. 5 - José Cordato.
Cap. 6 - A professora Maria Teresa.
Cap. 7 - Ti Manuel Camilo.

Setembro 1984
Cap. 8 - Joaquim Janeiro.
Cap. 9 - O cão da Barreta.
Cap. 10 - João Paulo.
Cap. 11 - Isabella.
Cap. 12 - Raquel.
Cap. 13 - Maria Assunta.
Cap. 14 - Funesto.
Cap. 15 - O padre Daniel.
Cap. 16 - O acontecimento II.


21 janeiro 2007

Cemitério de Pianos - José Luís Peixoto

Clap clap clap! Muitos parabéns ao autor por ter criado esta pérola. Há muito que não lia um livro que me desse tanto prazer em virar cada uma das suas páginas para tentar perceber todas as questões que ficam no ar com o decorrer da narrativa. Durante os primeiros capítulos cheguei a pensar que o livro seria um género de "Cem anos de Solidão" onde ficamos a conhecer ao pormenor três gerações de uma mesma família, e apesar de existir alguma verdade nisto, o busílis deste livro transcende, em muito, o género citado.
Enquanto estava para aqui a tentar escrever algo de jeito sobre esta obra, lembrei-me que por vezes é possível comparar um livro a uma figura geométrica: há histórias que decorrem em fórmula circular, outras são baseadas em triângulos amorosos, mas, a meu ver, esta história assemelha-se ao algarismo oito – ou ao símbolo do infinito - como preferirem (depende se são mais para o vertical ou horizontal) talvez provocado pelo travo presente a David Linch , que me agradou, e pelo jogo narrativo declarado que me entreteve bastante e fez-me lembrar o saudoso “Bolor” do Augusto Abelaira.
As personagens do enredo são complexas e cada uma interessante a seu modo, especialmente a personagem Simão que, como já era de se esperar, é a cereja no topo do bolo.
Por último, devo dizer que concordo plenamente com o Vasco Graça Moura quando diz:

"Creio estarmos perante um grande ficcionista e, também, um grande prosador da língua portuguesa, capaz de extraordinárias notações do real, de ritmos inovadores e até de uma relação estrutural com as formas musicais que não tem precedentes entre nós."

De facto, esta narrativa assemelha-se a uma vasta obra musical, onde se reconhecem andamentos distintos e ritmos opostos alternados, onde identificamos musicalidades diferentes e tipos diversos de linguagem.
Fiquei fã! Leiam.