Mesinha-de-cabeceira

  • Coca-cola Killer - António Victorino D'Almeida
  • As velas ardem até ao fim - Sándor Márai

09 Abril 2009

A Praia de Chesil - Ian McEwan (2007)

"A cólera. O demónio que conseguira controlar anteriormente, quando pensava que a sua paciência estava prestes a abrir brechas. Como era tentador ceder-lhe, agora que estava sozinho e podia deixá-la arder. (...) E que mal havia num mero pensamento? Era preferível acabar com ele agora, enquanto ali estava, meio nu entre destroços da sua noite de núpcias." (pág.105)

Este singelo livro de 128 páginas, conta-nos a breve história de Edward e Florence, dois recém-casados, repletos de medos, angústias e desejos na sua noite de núpcias.
A arte de pensar de duas pessoas que se relacionam é o ex-líbris do livro - McEwan descreve pormenorizadamente o rol de dúvidas que temos quando nos relacionamos com outros. O fazer isto para não parecer aquilo, a interpretação de cada gesto. Acaba por ser paranóico mas tem a sua piada - é a racionalidade a interferir com as simples emoções. E depois acabam por existir pequenos gestos que deixamos de fazer por medo, palavras que não dizemos por orgulho, até que chegamos à conclusão que amar não é algo que seja linear sendo impossível criar uma fórmula para entender este sentimento que não se percebe se é altruísta ou egoísta.

Ainda ontem uma amiga dizia-me que Danielle Steel era a escritora típica da americanazinha coitadinha, que nasceu nos confins do mundo e que se torna uma estrela de Hollywood. Por sua vez, Ian McEwan, a meu ver, é o escritor típico do grande amor interrompido por um "pequeno" erro que estraga sempre tudo. Não é que queira comparar este autor com Danielle Steel, porque na verdade nunca li nada dela, mas a verdade é que temo que os livros de Ian McEwan batam sempre na mesma tecla, tendo em conta o livro que acabei de ler, o filme A Expiação (ainda não li o livro) e o resumo que li dos Cães Pretos. Enfim, a ver vamos.

"Nada era nunca discutido e eles também nunca sentiam a falta de uma conversa íntima. Esses eram assuntos que estavam para além das palavras, para além da definição. A linguagem e a prática da terapia, a aceitação de sentimentos diligentemente partilhados, mutuamente analisados, ainda não tinham entrado em circulação generalizada. Embora se ouvisse falar de pessoas abastadas que faziam psicanálise, ainda não era habitual uma pessoa considerar-se em termos de quotidiano como um enigma, como um exercício de narrativa histórica, ou um problema à espera de ser resolvido." (pág. 22)

19 Março 2009

A Solidão dos Números Primos - Paolo Giordano (2008)

Chamar-lhe o melhor romance de 2008, como anunciava a fita vermelha que envolvia o corpo do livro, parece-me exagerado. Não é que eu tenha lido muitos romances editados o ano passado, mas mesmo o Destino Turístico não lhe fica atrás. Lê-se rápido, de um só fôlego - é uma vantagem - mas não me deixou estupefacta, como gosto de ficar. Se eu fosse a marketter encarregue deste livro, mandaria escrever na fita vermelha - "Melhor Prenda de Natal - 2008". Aposto que a maioria das pessoas dá-lhe no mínimo um 7 (de 0 a 10), pois é de agradável paladar.

Os primeiros capítulos são dedicados a dois acontecimentos trágicos que tranformam o romance entre um geek e uma anorética numa dark novel, ao mesmo tempo que dá carisma a este relacionamento e que distingue estes dois outsiders dos restantes mortais. Mas, como já disse anteriormente neste blog, quem é que não se sente E.T., nem que seja uma vez por outra? Enfim, a eterna saga dos inadaptados.

Paulo Giordano, autor do livro, é um jovem Físico italiano de 25 aninhos. Geek! :D

O livro tem a particularidade de me ter ensinado o que são números primos gémeos, o que não deixou de ser interessante. Foi também curioso andar por Amesterdão e ver publicidade deste livro espalhada por toda a cidade como que a relembrar-me que ainda não tinha escrito o post.

Como é hábito, deixo-vos com uma das minhas passagem favoritas, que me fez lembrar paranóias dos tempos de faculdade:

"Durante os quatro anos da faculdade a matemática conduzira-o aos recantos mais remotos e fascinantes do raciocínio humano. Mattia recopiava as demonstrações de todos os teoremas que encontrava no seu estudo com um ritualismo meticuloso. (...)Quando dava por si a hesitar em demasia numa passagem, ou se enganava a alinhar uma expressão após um sinal de igual, empurrava a folha para o chão e recomeçava do princípio. Chegado ao fim daquelas páginas densas de símbolos, de letras e números, escrevia a sigla cqd e por instantes tinha a impressão de ter posto em ordem um pequeno pedaço do mundo. Então, recostava-se na cadeira e cruzava as mãos sem as fazer roçar uma na outra."

08 Janeiro 2009

O Destino Turístico - Rui Zink (2008)

É sempre confortável encontrar um livro que após largos meses sem conseguirmos terminar um, nos apega e ficamos desejosos de chegar a casa só para ler mais um bocadinho. Felizmente foi o que me aconteceu com "O Destino Turístico" e agora já sinto saudades por hoje à noite não o ler. Gosto muito da escrita do Zink, já o conhecia, mas ainda não tinha lido um livro dele até ao fim. Parece que escreve para si próprio. Por vezes julgamos conseguir descortinar nitidamente as voltas que vai dando à narrativa, mesmo os recuos que faz quando uma ideia não se afigura tão genial como inicialmente aparentava, digo eu...
Este conto sobre Greg, ou Guereg, como queiram, que pretende morrer mas que não tem coragem para se suicidar, vive de uma ideia criativa que inicialmente nos reporta para paragens longíquas, levados por uma realidade estranha do espaço da acção que se assemelha mais a paragens no médio oriente, mas que aos poucos nos faz suspeitar que quiça esta "zona" onde decorre a narrativa afinal não é assim tão longe.
Se não me engano, há tempos ouvi o Rui Zink contar uma história de ter sido processado por ter dado um pontapé a um carro que não o deixou passar numa passadeira... foi engraçado recortar este acontecimento do livro.

"Greg atravessou o pátio e teve o segundo não-déjá vu do dia. Por uma razão qualquer, quase tinha a certeza de que ia encontrar a jornalista e o câmara à beira da piscina. (...) E lá não-estava ela, exactamente na mesma posição em que no dia anterior. (...)Um não-déjá vu era, de certo modo, simultaneamente o oposto e o dobro de um déjá vu. Este, o produto original, consistia na sensação estranha de voltar a ver uma cena tal & qual nos recordávamos de a ter vivido. Tendo isto em conta, a não-repetição da cena era, simplesmente, a não-repetição da cena. Um não-acontecimento. E um não-acontecimento era, por definição... enfim, um não acontecimento. Algo que não acontecera. Fumo. Fumo de nada. Nada. Só que, por outro lado, o facto de uma pessoa esperar um déjá vu não faria, desde logo, com que isso fosse (até certo ponto) um déjá vu?"

03 Setembro 2008

A Peste Escarlate - Jack London (1912)

Ligeiramente mais leve que os restantes livros desta colecção, A Peste Escarlate entreteve-me bastante no início das férias que agora terminam (espaço para um suspiro prolongado). Reconheço em alguns escritores norte-americanos um estilo a que geralmente apelido de cinematográfico e de facto a escrita de Jack London tem um ritmo de 7ª arte, envolvendo-se em paisagens e personagens que com prazer compomos recorrendo ao nosso imaginário. Lembrou-me filmes como Eu sou a Lenda ou O Acontecimento e cheguei mesmo a suspeitar que o Shyamalan ter-se-á inspirado neste livro, mas atenção, quem não gostou do filme não renegue à partida o livro. Fácil e rápido de ler, sustentado numa ideia original, tendo em conta que foi escrito há quase 100 anos, recomendo a todos.

O Ingénuo - Voltaire (1767)

Interessante mas nem por isso fascinante, O Ingénuo acaba por ser a epopeia de um hurão puro e frontal por terras europeias, resumida em menos de cem páginas. Gostei especialmente do final que de seguida transcrevo:

" O velho Gordon viveu com o Ingénuo até à hora da morte na mais íntima amizade; teve também uma abadia e esqueceu para sempre a "graça eficaz" e o "concurso concomitante". Escolheu para divisa: Para alguma coisa serve a infelicidade.
Quantos homens de bem no mundo terão dito: A infelicidade não serve para nada! (pág. 93)"

30 Julho 2008

Coração Débil - Fiódor Dostoiévski

"Dos seus olhos caíram lágrimas sobre a mão de Arkádii.
- Vássia, se soubesses a amizade que te tenho, não me fazias essa pergunta.
- Tens razão, Arkádii; mas eu não consigo perceber bem porque motivo és assim tão meu amigo. Quero que saibas, Arkádii, que esse teu afecto me pesa verdadeiramente. Quantas vezes, quando me deito, fico a pensar em ti - porque penso sempre em ti antes de adormecer - e o coração põe-se-me a bater com tanta força, tanta força... Por tu seres tão meu amigo e eu não ter maneira de te mostrar a minha gratidão..." (pág. 64)


(ler as próximas três palavras com sotaque britânico)
Drama, drama, drama!
Dostoiévski não desilude. As personagens que encontramos neste conto são todas uns pé-rapados, paranóicas e lamechas - choram mais facilmente do que eu (onde é que isto já se viu!). Mas a verdade é que Fiódor é um artista a transformar o delírio de um homem que vive obcecado em não defraudar as expectativas que os outros têm dele numa suave dança até à loucura. Esta é uma das suas primeiras obras, escrita em 1848, mas pelos vistos já fideliza um estilo muito sui generis do escritor. Estou delirante por finalmente ter terminado uma obra dele, tendo em conta que já tentei atacar o Crime e Castigo inúmeras vezes, mas não consigo ultrapassar a famigerada barreira das primeiras 100 páginas - o facto deste livro ter somente 88 ajudou :D.

Este é o primeiro livro de uma colecção de 30, que o Diário de Notícias resolveu oferecer aos seus leitores durante este Verão. Saem todos os dias expecto às terças e quintas. A oferta de hoje foi "A Minha Mulher" de Anton Tchekov. Para os possíveis interessados, aqui fica o link para o site do Diário de Notícias, onde podem encontrar a lista completa dos livros que pertencem a esta colecção e a data em que são oferecidos com o jornal.

10 Julho 2008

Rosa Vermelha em Quarto Escuro - Pedro Paixão

"Ela não gosta de escolher. Escolher é sempre anular todas as outras possibilidades.(...) Entretanto tomou várias decisões. O que ela evita sempre que possível. Tomar uma decisão é eleger uma possibilidade entre muitas outras que ficam preteridas. Pode ser injusto." (pág. 50 e 179)

Eu tenho um gosto secreto em poder escolher. É poderoso e enche-me de liberdade. Não me martirizo com as injustiças que podem advir daí. Sendo assim, apesar das inúmeras vezes em que me identifiquei com a personagem principal deste livro, também são muitas as diferenças evidentes que me separam dela. Mulheres, escritas por um homem... Podia meditar sobre isto mas não me apetece.

"Ela não consegue suportar a desconfiança. É o pior dos sentimentos. Dá-lhe dores físicas. A desconfiança é um cancro que vai roendo a relação entre as pessoas até já não ficar nada delas próprias. Nada há de mais raro e precioso do que a confiança. Muito difícil de ganhar, muito fácil de perder. " (pág. 79)

Sinto-me com vontade em fazer uma ligeira comparação com O Véu Pintado. Trata novamente do despertar de uma Mulher para a vida , mas desta feita muito mais ao meu género :) O livro é todo dedicado a ela, à sua inteligência e desorientação, aos seus desejos e castrações, às suas reflexões e limitações.

"Ela tem dificuldades em mentir. Nota-se logo, atrapalha-se, os olhos traem-na. Ela tem uma espécie de admiração pelas pessoas que sabem mentir. Mentir aqui implica ter de mentir em seguida ali e assim por diante. Uma mentira precisa de outra mentira para se confirmar como mentira. Nunca poder deixar de mentir." (pág. 66)

Apercebo-me que já não lia um livro do Pedro Paixão há pelo menos 6 anos. Os seus pequenos livros publicados pela Cotovia eram a minha fiel companhia nas viagens diárias de metro. Continua a escrever aos soluços, a sua principal característica, mas notei algumas diferenças na natureza da sua escrita: muito mais erótica e ligeiramente menos idealista.

"A simpatia é uma forma superficial de alguém se mostrar agradável por algum motivo. Perdido o motivo corre-se o permanente risco de se converter em brutal antipatia. (...) Muito diferente de ser educado. A educação mantém a devida distância. A simpatia pretende passar a estúpida ideia de que vamos ser para sempre muito amigos. Algo detestável." (pág. 118)

Podemos não aprender nada de jeito com este livro, mas toca em pormenores do nosso quotidiano, especialmente em subtilezas do relacionamento entre seres humanos, que me deixam intrigada e dou por mim a reflectir nesses mesmos pormenores constantemente. Podem achar que tudo o que o Pedro Paixão escreve é filosofia barata mas não posso esconder que em certa medida aprecio essa filosofia. Convém é não abusar senão enjoa.

"Uma pessoa não é quem quer ser, não faz o que gostava mais do que tudo fazer, não dita a vida que a leva consigo. (...) Salvo nos momentos de paixão em que vivemos a tremenda certeza de estarmos a ser quem somos. (...) A paixão é um engano em que nos queremos enganar mais do que tudo. Uma partida pregada pela vida que depois nos reconduz ao lugar quotidiano ao qual pertencemos e nos vai construindo e desfazendo. Dia a dia, todos os dias. O castigo de ter querido ser mais do que se é. Do que se pode. Ela pensa várias vezes em coisas deste tipo. Coisas que apelida do tipo inútil. Que não parecem ajudar. Sem aprofundar muito. Com receio de pensar demais nisso e ficar retida algures numa dúvida cheia de perigos." (pág. 11 e 12)

Pegando em palavras do autor, pode-se dizer que nesta história não acontece quase nada, pois o importante não é o que acontece mas o que se faz com o que acontece.

"O Luís pede mais uma garrafa de vinho verde que não é verde mas sim amarelo transparente e diz: avançamos todos ao mesmo tempo, no mesmo tempo a atravessar a eternidade. Deve haver uma parte de nós que passa com o tempo. Outra não passa porque vive desde sempre na eternidade. Quando leio Píndaro ou Platão sinto que não passou tempo algum, que nos encontramos num canto da eternidade, o nosso café, e sinto-me deveras feliz."(pág. 188)

Eu gostei, é muito ao meu género e já estou com saudades de o folhear.

" A vida é uma prodigiosa viagem em que nos vamos reencontrando a nós próprios." (pág. 123)

Agora quanto à minha paranóia de não gostar de ler livros emprestados, achei engraçado transcrever-vos esta última passagem:

"Quando estou a ler um livro que pertence a outra pessoa esse livro não será meu enquanto o estou a ler? Mais meu do que de quem o comprou? Roubar um livro não será o único roubo que não merece castigo?" (pág. 59)

09 Junho 2008

Contos de Morte - Pepetela

Acidentalmente, mas o que torna o feito curioso, li de seguida os dois primeiros números da novíssima colecção "Mil Horas de Leitura" da editora Nelson de Matos. O número dois, que me foi oferecido em mais um aniversário (obrigada), foi uma agradável surpresa e serviu para me estrear nas escritas de Pepetela. Gostei. Reportou-me para uma África "familiar", fazendo-me lembrar as histórias que o meu avô me contava como retornado inconformado. Tal como Mia Couto (que é mencionado neste livro), a forma de escrever transmite o calor de outras paragens, mas com Pepetela, tanto quanto pude entender, existem momentos repentinos de inesperada violência que dão uma suave acidez a cada conto.

Constituído por 5 histórias inéditas, estas estão organizadas da seguinte forma:
*A Revelação (1962)
*O Caixão do Molhado (2001)
*Mandioca de Feitiço - para Miguel Torga (2001)
*Estranhos Pássaros de Asas Abertas - introdução ao canto V de Os Lusíadas (2003)
*O Nosso País é Bué (1999)

19 Maio 2008

Lavagante - José Cardoso Pires


"Sei, como todos nós sabemos, como pesa o tempo vencido sobre alguém que se aventura a descrevê-lo. É um eco a esfumar as palavras, uma ironia que nos contempla de longe, um pudor."

Um livro perfeito para se ler quando ficamos sem companhia para uma boa conversa e assim, há falta de melhor, fazemo-nos convidados ao serão de 2 amigos, que desabafam sobre desamores, numa agradável noite de verão, sentados debaixo de um alpendre.
Lê-se numa noite só. Não arrebata mas aconchega.
Tal como no "Não só mas também" do Abelaira, pensei muitas vezes no caso de o autor ainda ser vivo - será que as suas decisões finais quanto ao emprego deste ou daquele nome/verbo/adjectivo seriam as mesmas da pessoa encarregue destas edições póstumas ao falecimento do autor? Por um lado penso que estas edições roubam vernaculidade à obra inacabada, que ao receber estes retoques de mãos estranhas, perde um certo encanto virginal, por outro gosto simplesmente de as ler, mas sempre com medo de me desiludir. Os pormenores, os pormenores... os pormenores são muito importantes! Como seria bom conseguir ler um livro sem me desperdiçar a pensar nestas coisas...

25 Janeiro 2008

Os Paraísos do Caminho Vazio e outros contos - Rosa Liksom

"A mulher junta os ossos roídos do frango num grande monte ao canto da mesa e arrota ruidosamente." – são belas frases como esta que podemos encontrar ao longo deste compêndio de contos.
Lá consegui contrariar a minha panca de só ler livros meus – ridículo e dispendioso, eu sei – e li este emprestado por andar a reclamar que estou numa fase em que só me apetece ler histórias frias e cruas, como sushi. Na verdade, se o livro não me tivesse sido gentilmente emprestado e, por outro lado, eu tivesse simplesmente pegado nele, por acaso, numa livraria qualquer, estou certa que não o traria comigo, isto porque as primeiras páginas são tão verbalmente violentas que se quisesse transcrever apenas uma única frase, este blog teria de passar a ter uma bolinha vermelha no canto superior direito.
Basicamente, trata-se de uma colecção de pequeníssimas histórias onde o mais absurdo ou perverso acontece sempre, o que faz com que o desfecho seja sempre demasiado previsível. Sim, são frias, sim, são cruas, mas não encheram as medidas do meu vazio glaciar. De qualquer forma, serve o presente post para inaugurar a minha apreciação de um livro cujo autor é do sexo feminino. Quando terminei de o ler, pensei que gostava de ter a experiência de ler um livro do qual desconhecesse o sexo do autor, isto porque dei por mim muitas vezes a dizer, enquanto percorria as páginas deste livro – vê-se mesmo que é mulher! E atenção que a escrita de Rosa Liksom está muito longe de qualquer estereotipo de escrita de mulher. Muitas vezes o narrador, e protagonista principal do conto, é um homem; geralmente um homem violento e amargo, mas que ao transparecer a sua virilidade nota-se que só pode ser uma mulher a escrever - ou então sou eu que tenho a mania que consigo captar sempre tudo. Aqui fica um exemplo do que estou a tentar dizer:

"Deixei-a porque queria viver sozinho. Não suporto os cheiros das outras pessoas, nem as caras que fazem, nem a maneira como se sentam, à mesa ou em frente da televisão. Quero viver sozinho porque não preciso de ninguém, muito menos de uma mulher que faz de tudo um problema. E apesar disso, estou aqui sentado neste sofá, pelo sétimo dia, e não penso em mais nada a não ser nela. Não tenho um momento de sossego, porque ela está presente o tempo todo. Isto remexe-me de tal maneira que nem dormir consigo. O coração bate-me da nuca às pontas dos dedos."

Como nota final, devo dizer que achei curioso o uso excessivo da palavra seios ao longo das linhas destes contos o que, na minha opinião, faz com que a escolha da imagem da capa esteja muito bem conseguida.

10 Janeiro 2008

A Metamorfose - Franz Kafka

Ano novo, vida nova, com mais actividade neste blog, assim o espero.
Quando sinto necessidade de mudar, recarregar baterias para uma nova fase, agarro-me a velhos companheiros, pelos quais nutro um fascínio especial; daí resolvi reler "A Metamorfose". Verifiquei mesmo agora que tinha iniciado um rascunho sobre este livro a 26-10-2006 - o tempo passa… ai, afinal, rapaz, o tempo passa!
Há alturas em que me parece impensável reler este livro, mas noutras torna-se imprescindível o estranho conforto que encontro no desconforto relatado nestas escassas páginas. Ou nos fascina ou nos repugna. Se é fácil perceber porque nos repugna, o fascínio que também nos pode provocar não é assim tão compreensível. Talvez tenhamos a ilusão que se encararmos o horror de frente tornamo-nos mais fortes, ou seja, acordamos nós próprios com uma carapaça, e um certo sadismo passa a ser contemplação da beleza do feio que julgamos que nos fortalece a alma – imagino muitos a torcer o nariz ao lerem isto. De qualquer forma, acho hipnotizante a forma como o escritor descreve com frieza e simplicidade tudo o que pode haver de menos bonito na vida. Como alguém me disse um dia – Ninguém enfatiza o horrível como Kafka!
Se já conheço esta novela desenxabida porque desejo voltar ao seu ambiente surreal? – tenho andado a tentar responder a esta pergunta e não consigo. Num ambiente hostil, em que um homem vulgar se vê transformado num insecto, observamos ao pormenor o desespero, a agonia, o abandono e, mais assustador do que tudo isso, a sua modesta resignação:

"Sem dúvida, alguém desejara entrar, mas os escrúpulos tinham vencido. (...) Logo de manhã, quando todas as portas estavam fechadas à chave, todos queriam entrar; agora que ele tinha aberto uma e que as outras manifestamente tinham sido abertas durante o dia, ninguém vinha. Aliás, as chaves estavam nas fechaduras, mas do outro lado das portas. (...) Por agora, até de manhã, certamente ninguém viria ver Gregor. Dispunha portanto de muito tempo para reflectir com tranquilidade sobre o modo como iria reorganizar a sua vida."

30 Agosto 2007

O pecado de Darwin - John Darnton

Troquei o "Gente Independente" por este livro, como leitura de férias, porque achei que o ambiente gélido islandês não combinava com as praias algarvias onde eu iria estar, por isso fui contra a teoria da grande filósofa Ana Pinheiro que me alertou que as grandes obras deviam ser lidas nas férias, quando estamos mais disponíveis para pensamentos profundos, teoria com a qual eu sempre concordei mas que nunca pus em prática. Acontece que não peguei no livro durante toda a minha estadia pelo sul, porque felizmente ou infelizmente não houveram tempos mortos. Quando regressei e supostamente deveria começar a estudar afincadamente para os exames que tenho em Setembro é que me viciei completamente no livro, passando praticamente noites inteiras acordada, só para devorar mais um capítulo que jurava ser o último que iria ler nessa noite, mas que nunca era. Resumidamente, o livro é um género de "Código Da Vinci" (é incrível a quantidade de vezes que uso este livro para o comparar com outros) onde o herói não é tanto um Indiana Jones, mas mais um Sherlock Holmes moderno onde o Dr. Watson é um rapariga jeitosa, ou seja, é um daqueles livros que se lê muito facilmente, que de certo modo nos envolve, mas que quando terminamos não nos deslumbra como talvez esperaríamos, deixando-nos até um pouco indiferentes.
Gostei de conhecer algumas das personagens que fizeram a viagem mítica com Darwin no Beagle e de revisitar Londres, especialmente Greenwich, que, aquando da minha última visita à capital inglesa, adorei conhecer. De resto não tenho mais nada a apontar, excepto, mais uma vez, as imensas gralhas de impressão. Será que não existem revisores nesta terra?

15 Junho 2007

O Homem ou é tonto ou é mulher - Gonçalo M. Tavares

Primeiro BIS neste blog e não é por acaso que calha ser o Gonçalo M. Tavares. Acho que me apaixonei perdidamente pela escrita deste homem e agora está-me no sangue ler tudo o que consigo arranjar dele. Este exemplar em particular foi bem difícil de encontrar o que faz com que o considere uma verdadeira pérola. Fiquei tão contente quando finalmente o consegui comprar que até bati palminhas quando o Sr. da barraquinha da feira do livro me disse: "De facto está em ruptura de stock, mas ainda tenho aqui alguns." - por vezes perco o medo do ridículo, o que, é claro, é muito bom. Talvez não seja o livro indicado para primeiro livro a ler do GMT, mas que é simplesmente genial, é! Em apenas 80 páginas, rimos, dançamos, reflectimos sobre a vida e suspiramos lá para o final. Deixo-vos apenas com o pedaço que podemos ler na contra-capa, mas que descontextualizado, não tem metade da piada:

"Mas não julguem que não penso.
Eu sou é um pensador doméstico.
Fecho-me em casa e penso muito.
Quando venho cá para fora é que começo a disfarçar.
(...)
É muito difícil ser inteligente com tanta rapariga bonita a passar."


Diz-se por aí que irá sair uma nova edição, já com algumas modificações que o autor quis fazer...

22 Maio 2007

Kafka à beira-mar - Haruki Murakami

O Independent apelidou-o de "Viciante", o Daily Mail de "Maravilhoso" e o The Times de "Hipnotizante" mas o melhor romance de 2005, intitulado pelo New York Times, teve sérias dificuldades em cativar-me. O primeiro capítulo fez-me torcer o nariz, não me agarrou, por assim dizer, o segundo começou a puxar por mim, mas durante as primeiras 300 páginas perguntei-me várias vezes se valeria a pena ler 50 capítulos do género. A sorte é que estava decidida em ir até ao limite da minha paciência, que felizmente é muita, e lá pelo meio fiquei agarradinha e deixei de fazer interrupções de 100 em 100 páginas para ler outro livro (comecei-o a ler antes do "Nem tudo começa com um beijo"). Curiosamente, as mesmas primeiras 300 páginas que não me fascinaram por aí além são as 300 páginas mais... mais "normais" (há que dar uso a esta palavra, diria o Branco) - à excepção de um velhote que fala com gatos e de uma quantidade de putos que desmaia numa montanha, nada de realmente estranho acontece. Quando a coisa começa a azedar e aparecem Johnnie Walkeres (Uísque) e Coronel Sanders (KFC) caídos sabe-se lá de onde, por estranho que pareça, e de facto é do mais estranho a que já assisti, foi quando o livro começou a entusiasmar-me e nunca mais o larguei.
Desta vez não vou passar nenhuma frase que tenha gostado (não é que não tenham existido), mas acontece que com esta história ficam mais imagens bem gravadas na memória (a biblioteca da Sra. Saeki, o frigorífico do JW, a cabana no meio da floresta, etc.), do que propriamente frases filosóficas interessantes, por isso vou-me restringir a copiar o que está escrito na contra-capa que só depois de ter terminado o livro fez completo sentido para mim:

"Sou livre. Fecho os olhos e penso com toda a minha força na minha nova condição, ainda que não esteja bem certo do que significa. Tudo o que sei é que estou completamente sozinho. Desterrado numa terra desconhecida, como um explorador solitário sem bússola nem mapa. Será isto a liberdade? Não sei, confesso, e às tantas desisto de pensar nisso."

... e porque o livro é sobre a liberdade, posso finalmente dizer, gostei. Além disso, sempre deu para conhecer mais um pouco da misteriosa cultura nipónica que, cada vez mais, tenho curiosidade em aprofundar.

PS: Não é que me desagrade totalmente esta nova editora (Casa das Letras) mas as gralhas ao longo do livro são mais que muitas. Não é que tenha encontrado erros ortográficos graves, mas conjunções quer repetidas quer fora do lugar, sílabas a menos ou a mais, etc. Na página 268 há uma frase que não percebi e pergunto-me se é ignorância minha ou mais alguma lacuna na impressão portuguesa.

22 Abril 2007

O Véu Pintado - W. Somerset Maugham


Num total de 284 páginas, gostei efectivamente de ler umas 20. Eu que ando sempre a dizer que O Fio da Navalha é um dos grandes livros da minha vida, lido no longínquo ano de 1994, começo a pensar que só me marcou porque na altura eu era uma teenager.
Amigos que leram/releram O Fio de Navalha recentemente continuam a dizer que é uma excelente história, mas quanto a esta, não há muito a dizer. Além do estilo do próprio escritor que não é dos que mais gosto, a "libertação" de uma senhora fútil e a suas viagens, físicas e psicológicas, não me interessaram minimamente e mesmo assim consegui chorar a meio! Uma vergonha, bem sei, mas sou geneticamente de lágrima fácil.
Estava a planear ler o livro para depois ver o filme, mas começo a ter dúvidas que vá desembolsar 5€ para o ver... só se for mesmo pelos actores.
Da leitura célere deste livro, guardo unicamente 3 frases interessantes, que me fizeram lembrar várias conversas que tive recentemente:

"Só alcançarás o que queres, quando tiveres deixado de o desejar (...)" (pág. 207)

"(...) a única coisa que nos permite olhar este mundo em que vivemos sem asco é a beleza que, de vez em quando, os homens fazem brotar do caos." (pág. 229)

"(...) se por vezes é preciso mentir aos outros, é sempre deplorável mentir a si própria." (pág. 243)

26 Março 2007

No Reino da Dinamarca - Alexandre O´Neill

Numa tarde de estudo na Biblioteca D. Dinis, assisti inesperadamente a um evento intitulado Viver a Poesia, onde se pretendeu comemorar o Dia Mundial da Poesia juntamente com o Dia Internacional da Mulher. Vários poetas ligados ao concelho de Odivelas recitaram alguns dos seus poemas, a maioria, obviamente, dedicados ao sexo feminino, e no final, quem quis, pode provar que todo o português tem alma de poeta.
Ultimamente têm-me perguntado várias vezes porque concordo com a existência de um Dia Internacional da Mulher e eu lá puxo de armas e bagagem para argumentar a importância de dias de sensibilização como o 8 de Março. Deixo agora um desafio a todos os que me deram nas orelhas por eu orgulhosamente comemorar o dia da Mulher: Porque raio é que existe um Dia Mundial da Poesia? Porque descriminamos o verso face à prosa? De facto é a primeira vez que escrevo sobre poesia num post deste Blog... credo... é por causa de gente como eu que houve necessidade de se criar este dia! Bem, para me redimir, e porque por mim não há mal nenhum em existir o Dia Mundial da Poesia, apesar de ser chato ser no mesmo dia da árvore pois uma pessoa fica indecisa entre plantar um castanheiro ou chorar enquanto lê Florbela Espanca, deixo-vos a referência a um dos meus livros favoritos de poesia, com especial destaque para este velho poema, que à medida que o tempo passa, e é verdade que o tempo passa, gosto cada vez mais:


TOMA LÁ CINCO!

Encolhes os ombros, mas o tempo passa...
Ai, afinal, rapaz, o tempo passa!

Um dente que estava são e agora não,
Um cabelo que ainda ontem preto era,
Dentro do peito um outro, sempre mais velho coração,
E na cara uma ruga que não espera, que não espera...

No andar de cima, uma nova criança
Vai bater no teu crânio os pequeninos pés.
Mas deixa lá, rapaz, tem esperança:
Este ano talvez venhas a ser o que não és...

Talvez sejas de enredos fácil presa,
Eterno marido, amante de um só dia...
Com clorofila ficam os teus dentes que é uma beleza!
Mas não rias, rapaz, que o ano só agora principia...

Talvez lances de amor um foguetão sincero
Para algum coração a milhões de anos-dor
Ou desesperado te resolvas por um mero
Tiro na boca, mas de alcance maior...

Grande asneira, rapaz, grande asneira seria
Errar a vida e não errar a pontaria...

Talvez te deixes por uma vez de fitas,
De versos de mau hálito e mau sestro,
E acalmes nas feias o ardor pelas bonitas
(Como mulheres são mais fiéis, de resto...)

Alexandre O'Neill

21 Janeiro 2007

Cemitério de Pianos - José Luís Peixoto

Clap clap clap! Muitos parabéns ao autor por ter criado esta pérola. Há muito que não lia um livro que me desse tanto prazer em virar cada uma das suas páginas para tentar perceber todas as questões que ficam no ar com o decorrer da narrativa. Durante os primeiros capítulos cheguei a pensar que o livro seria um género de "Cem anos de Solidão" onde ficamos a conhecer ao pormenor três gerações de uma mesma família, e apesar de existir alguma verdade nisto, o busílis deste livro transcende, em muito, o género citado.
Enquanto estava para aqui a tentar escrever algo de jeito sobre esta obra, lembrei-me que por vezes é possível comparar um livro a uma figura geométrica: há histórias que decorrem em fórmula circular, outras são baseadas em triângulos amorosos, mas, a meu ver, esta história assemelha-se ao algarismo oito – ou ao símbolo do infinito - como preferirem (depende se são mais para o vertical ou horizontal) talvez provocado pelo travo presente a David Linch , que me agradou, e pelo jogo narrativo declarado que me entreteve bastante e fez-me lembrar o saudoso “Bolor” do Augusto Abelaira.
As personagens do enredo são complexas e cada uma interessante a seu modo, especialmente a personagem Simão que, como já era de se esperar, é a cereja no topo do bolo.
Por último, devo dizer que concordo plenamente com o Vasco Graça Moura quando diz:

"Creio estarmos perante um grande ficcionista e, também, um grande prosador da língua portuguesa, capaz de extraordinárias notações do real, de ritmos inovadores e até de uma relação estrutural com as formas musicais que não tem precedentes entre nós."

De facto, esta narrativa assemelha-se a uma vasta obra musical, onde se reconhecem andamentos distintos e ritmos opostos alternados, onde identificamos musicalidades diferentes e tipos diversos de linguagem.
Fiquei fã! Leiam.

23 Novembro 2006

Nem tudo começa com um beijo - Jorge Araújo e Pedro Sousa Pereira

Já andava a namorar este livro há algum tempo. Li algures um artigo sobre os autores e dois pontos suscitaram o meu interesse: as histórias (não consigo habituar-me a estórias) de Jorge Araújo eram acompanhadas com ilustrações de Pedro Sousa Pereira – este 2 em 1 fascina-me; ambos nasceram em ex-colónias portuguesas.
Recentemente, enquanto atravessava uma daquelas fases em que nenhum livro tem a capacidade de "me agarrar" especialmente, resolvi finalmente comprá-lo, mais uma vez em duplicado – um para oferecer (já leste Catas?) e outro para guardar. Esta pseudo-história-infantil deu corda à minha imaginação e gostei de me perder pela Cave (buracos do esgoto onde vivem meninos da rua que têm medo de crescer e ficarem sem buraco onde viver). No meio deste cenário enclausurante surge uma história de amor além fronteiras que dá a pincelada fulcral a esta história de encantar. Quando cheguei à página 152 – supostamente ao final do livro – dei de caras com um posfácio escrito por um tal Pedro Ayres Magalhães que roubou, sem dó nem piedade, a nuvenzinha mágica que pairava sobre a minha cachimónia. A análise metafórica do senhor, que pelos vistos tem algum crédito, tendo em conta que foi publicada juntamente com o livro, está envolta num espírito tão… como dizer… tão gélido, que sinceramente fiquei de mau humor. Eu que até gosto de viragens repentinas na moral de uma história, esta achei-a muito pouco estética, para não dizer ética. Ou seja, eu que já estava preparada para fazer um comentário todo pimpolho a este livro, fiquei sem vontade nenhuma. Por isso o meu conselho é: se quiserem ler um conto engraçadote com umas ilustrações giras, leiam este singelo livro, como o posfacista o adjectiva, mas antes arranquem as últimas 13 páginas.

15 Outubro 2006

O outro pé da sereia - Mia Couto

Apaixonei-me por este livro mal o vi: título sugestivo, imagem de capa enigmática, corpo do livro dividido em cadernos, ora de folhas brancas ora de folhas amarelas. Estas mariquices fascinam-me:)
Pois bem, o Mia Couto não me desapontou e bem ao estilo dele esta história é um bolo de realidade e imaginário muito bem batido. O final é tão (ou tão pouco) revelador que ainda agora estou a tentar tirar as minhas próprias ilações sobre o que realmente se passou ao longo das 382 páginas - vicio irritante do ser humano.
Como é costume, deixo-vos com um pequeno mimo deste livro - um trecho de um diálogo entre Mwadia, personagem principal (e única?!?!) deste enredo, com o seu padrasto, Jesustino Rodrigues, o alfaiate reformado de Vila Longe, de descendência indiana:

- Esse poente, esse poente! Você usava aquela outra palavra que eu gostava tanto, como era?
- Crepúsculo.
- Era isso mesmo, crespu... diga lá outra vez!
- Crepúsculo.
- Maravilha
, disse Rodrigues, soletrando repetidamente a palavra. E suspirou: Estou para aqui todo crepuscalado.

12 Agosto 2006

Jerusalém - Gonçalo M. Tavares

Já há algum tempo que queria ler este livro por ter ouvido alguém dizer que era o melhor livro português de 2005. Quando há duas semanas procurava uma prenda para oferecer a uma amiga - que é das poucas que comenta neste blog - encontrei-o sem querer, a um preço reduzido num hipermercado (porreiro!!), e resolvi comprar dois exemplares: um para oferecer e outro para ler.
Têm-me perguntado diversas vezes se o livro é sobre a cidade de Jerusalém e para falar a verdade não faço a mínima ideia onde é que é passada a acção da narrativa, mas acontece que a única vez que esta palavra vem mencionada ao longo de todo o livro é na página 170, com a frase:

Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que seque a minha mão direita.

Leiam o livro e depois tirem as vossas conclusões quanto ao título.
Para mim esta narrativa é quase como um ensaio sobre o velho ditado "De louco todos temos um pouco". É um livro sobre várias personagens, por ventura todas loucas à sua maneira, e não tanto um enredo entre elas. Por esta razão acredito que muitos não irão gostar do género. Eu gostei porque acabo por ter sempre um fascínio por murros fortes no estômago e este é sem dúvida um livro negro, que faz jus à capa. Vejo este Livro Preto (assim é chamada a colecção onde se insere) como uma enorme corrente fechada em que cada capítulo é um anel. Provavelmente esta estrutura circular é para nos deixar tontos e também nós loucos um pouco - se é que já não o somos.
Como já vem sendo hábito, deixo-vos com uma das passagens da obra que mais gostei, que me fez lembrar muitos dos pesadelos que tenho:

Porque havia sempre a sensação de que o homem que persegue, persegue individualmente; marcou-nos algures com uma marca imperceptível e não nos larga; e quase tão terrível como não nos deixar de perseguir é o facto de não nos conseguir agarrar.

09 Agosto 2006

A história do Senhor Sommer - Patrick Suskind

À semelhança do livro do Jorge Amado, este também é óptimo para se ler numa bela tarde de praia. Mais sóbrio e consistente, este é um livro que faz recordar episódios de infância que teimosamente não esquecemos e, sem se saber muito bem porquê, marcam-nos eternamente. Tal como nunca me esqueci que uma vez fui para a aula de música só com uma meia calçada e a outra no bolso, agora não me esquecerei do episódio da ranhoca na tecla do fá sustenido :)

22 Julho 2006

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá - Jorge Amado

Que bela ideia eu tive hoje! Quando a minha mãe me arrastou até à praia, nesta tarde de Sábado soalheira, arrastei comigo uma pequeníssima GRANDE preciosidade: a edição de bolso da Dom Quixote do livro “O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá – uma história de amor” de Jorge Amado, prenda de aniversário, oferecida para comemorar os meus 26 aninhos (obrigada Pedro). Aconselho vivamente a quem ainda não leu esta história, e não sabe que livro levar para empatar o tempo que vai passar estendido numa toalha, a carregar consigo este peso-pluma. Não incomoda nada, lê-se num instante e faz bem à alma.
Esta história fez-me sorrir constantemente e despertou em mim sensações puras, quase infantis, muito familiares, mas praticamente esquecidas. Terminei de ler o livro com um nó na garganta (ou um peso no coração – nunca sei distinguir muito bem) mas fechei-o com aquela ilusãozinha que a vida é bela e amarela.
Ao tentar escolher uma frase que exemplifique a beleza e doçura deste livro arrisco-me a transcrever a história por completo, mas aqui fica uma pequena pérola da primeira parte do livro:

Vestida de luz branca com salpicos de flores azuis e vermelhas, a Manhã atravessa por entre as nuvens, distraída, pensativa, reflectindo sobre o caso que o Vento viera de lhe contar.

Por vezes, o sorriso constante gerado pela leitura da história, transformava-se mesmo numa gargalhada muda (estava no meio de muita gente – quem vai a Carcavelos ao fim de semana sabe como é, temos que deixar o território marcado com a toalha quando vamos à água, senão arriscamo-nos a passar o resto da tarde a trabalhar para o bronze de pé). Bem, mas dizia eu que também me ri ao longo desta história. Aqui fica mais um pequeno trecho:

Além de mau e feio, o Gato Malhado era um pobre de Job; repousava a cabeça em cima dos braços. Sendo de pouco luxo, não reclamava. Falta sentia de outras coisas: de afeição, de carinho e de salsichas vienenses.

Resta dizer que a última ilustração do Gato Malhado ajudou em muito ao desenvolvimento do nó na minha garganta.

17 Julho 2006

Dias Exemplares - Michael Cunningham

Quarto livro publicado em Portugal de um escritor que eu muito admiro. Os livros são sempre muito bem escritos e emocionalmente fortes. Geralmente leio os livros dele de uma rajada só, mas neste, infelizmente, tive que fazer uma pausa. Li as duas primeiras histórias no início deste ano (Janeiro) e guardei a futurista para agora. Se o Auster não se tivesse adiantado, bem que este livro poderia chamar-se Trilogia de Nova Iorque (a meu ver o título seria bem mais adequado). A qualidade de escrita não me desilude, a criatividade surpreende-me, mas já quanto à profundidade deixa um pouco a desejar. O meu favorito dele continua a ser Sangue do meu Sangue.

31 Março 2006

Quando Nietzsche Chorou - Irvin D. Yalom

Este é um dos casos em que comprei um livro simplesmente pelo título sugestivo e pelo interesse provocado por uma rápida passagem de olhos pelo pequeno texto da contra-capa. Em resumo, resolvi arriscar.
Desde há algum tempo que a personagem Nietzsche me tem suscitado algum interesse, mas até agora ainda não tinha lido nada de/sobre ele.
A seguinte passagem do livro "Assim falava Zaratustra" (fica explicado o nome do blog) serve de aperitivo para o romance de ideias que lhe procede:

Alguns não conseguem afrouxar as suas próprias cadeias e, não obstante, conseguem libertar os seus amigos.

Um homem tem que estar preparado para se queimar na sua própria chama: como se pode renovar sem primeiro se transformar em cinzas?


Tenho que dizer que aprecio as qualidades físicas deste livro, tanto a textura da capa, como das folhas do seu interior (ásperas). Quando ao cheiro não dou nota 10, mas não é mau de todo. O preço capa está em 18.85€, mas com os descontos da praxe conseguimos levá-lo para casa por 16.97€.
Quando ontem peguei no livro, na esperança de me ajudar a adormecer, só consegui apagar a luz eram já três da manhã (tinha de acordar às sete). Lê-se com bastante fluidez mas distingue-se daquele género ligeiro que nos dá a sensação que estamos só a encher chouriço, ou seja, a encher os nossos neuroniozinhos com lamechices e outras tretas que não servem para nada. A forma como este livro agarra o leitor aproxima-se do poder do best-seller "Código da Vinci" (muitos vão detestar esta comparação), mas quanto ao género em si distingue-se do mencionado. Na verdade, a natureza do livro faz-me lembrar, por vezes, o meu querido "Imortalidade" do Kundera. Ou seja, não é daqueles livros que temos de os ler num daqueles dias em que o nosso Q.I. está especialmente forte, mas também não é daqueles tipo novela das oito (nove e tal).
O 1º capítulo resume-se a um pequeno-almoço em Veneza (fiquei com uma enorme vontade de voltar) e de resto, até agora, a "acção" desenrola-se em Viena (será que é desta que me vou apaixonar por esta cidade?).
Para servir de teasing, deixo-vos esta frase presente no 2º capítulo:

Conversámos sobre a relatividade do bem e do mal, sobre a necessidade de se libertar da moralidade pública de modo a viver moralmente a religião de um livre-pensador.